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Tempo incerto: De passo entorpecido! | Região de Leiria

Tempo incerto: De passo entorpecido!

José Vitorino Guerra

José Vitorino Guerra

Existe, na actual sociedade portuguesa, um sentimento de descrença e de desconfiança que afasta os cidadãos das instituições e da vontade de construir o futuro.

É normal ouvir-se dizer, “estou farto disto,” “quem me dera reformar-me”, “mas o que hei-de fazer à vida”? Entretanto, acalenta-se o sonho na “raspadinha” ou no Euromilhões, na esperança de enganar a “má fortuna”.

Não se trata do velho pessimismo da Pátria Lusitana, país rural e pobre, amarrado ao fado de ter sido incapaz de se industrializar e de superar os bloqueios estruturais herdados do século XIX, que se arrastaram pela conturbada 1ª República e a que o salazarismo tardiamente procurou responder.

É um sentimento mais profundo e doloroso que nos afasta de nós próprios, perdidas as ilusões dos verdes anos, vitimadas pelas agruras da vida e pela falta de horizontes.

Temos sido incapazes de aprender com os próprios erros e de delinear uma estratégia nacional para o desenvolvimento. Envelhecidos, vamo-nos recusando a nascer, enquanto os jovens desesperam pelo emprego e se confrontam com a constante incerteza dos dias que correm. O peso dos séculos da nossa história parece demasiado e as frustrações colectivas acumuladas entorpecem o passo.

Desde o colonialismo informal a que fomos sujeitos pela Inglaterra, em diversas fases do século XIX ou na conjuntura belicista da 1ª Guerra Mundial, que não estávamos tão endividados e dependentes do exterior. Por outro lado, a elite política dá crescentes sinais de esgotamento e de estar amarrada ao desgaste interno dos partidos e à perda de valores.

Não parecem existir as forças políticas e sociais capazes de gerarem um projecto de mudança. Num contexto internacional de forma crescente volátil e perigoso e perante um projecto europeu desgastado, estamos frágeis e desguarnecidos. O futuro possível não se avizinha risonho e apenas podemos desejar que não represente um regresso ao passado que todos conhecemos.

Portugal parece cada vez mais um navio cansado de muitas viagens e incapaz de enfrentar, de novo, mares alterosos, que se deixa ficar amarrado ao cais, enquanto, lentamente, vai metendo água, entalado entre o que gostaria de ser e o colapso lento que se anuncia, se o crescimento anémico das últimas décadas não for vencido.

Escrito de acordo com a antiga ortografia

(Texto publicado na edição de 03 de novembro de 2016)

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