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Maria não quer vacinar as filhas e os médicos avisam que é uma decisão perigosa | Região de Leiria

Maria não quer vacinar as filhas e os médicos avisam que é uma decisão perigosa

A esmagadora maioria da população está vacinada mas uma empresária de Leiria assume que decidiu não vacinar as filhas, desafiando as recomendações científicas e das autoridades de saúde.

Cervical Cancer Vaccine

Profissionais de saúde lembram que foi graças à vacinação que se registaram melhorias acentuadas na queda da mortalidade infantil

Maria Forte, empresária de Leiria, tem quatro filhas, com idades entre os 4 e os 17 anos. Nenhuma é vacinada por opção dos pais. Ainda assim, Maria Forte garante que não é contra as vacinas. Pesou os prós e os contras – até porque “ninguém gosta mais das minhas filhas do que eu”, sublinha -, e decidiu que o risco está do lado da vacinação.

Uma posição que desafia o consenso científico mas que, diz, não é irredutível: “se alguém me comprovar cientificamente que a composição da vacina não coloca em risco a saúde das minhas filhas, irei para o primeiro lugar da fila vaciná-las”. “Não existe evidencia cientifica que suporte a decisão de não proceder à vacinação. A vacinação representa um bem na nossa sociedade e não pode estar ligada a crenças, ideologias ou opiniões pessoais”, contrapõe Rui Passadouro, médico de Saúde Pública e presidente da Sub-Região de Leiria da Ordem dos Médicos.

Embora a taxa de vacinação na nossa região ultrapasse os 95%, Maria não está só. Há uma franja da população que opta pelo risco de não vacinar. Do ponto de vista da ciência, da medicina e das autoridades de saúde, esta é uma posição arriscada e perigosa. Porque não só coloca em causa a saúde de quem não está vacinado como a restante comunidade, que fica mais permeável à doença. Nada que convença Maria que ensaia provar a ineficácia coletiva das vacinas, usando o caso de uma sua filha (não vacinada): “Uma filha minha teve tosse convulsa e a tosse convulsa estava supostamente erradicada há uma série de anos pela vacina. Se isso fosse verdade,  tal não teria acontecido”.

Ana Silva, médica, coordenadora das doenças transmissíveis do Programa Nacional de Vacinação no ACES Pinhal Litoral, tem muita dificuldade em perceber estas tomadas de posição. A razão é muito simples: tem factos concretos que evidenciam que este esforço resulta. Portugal teve “uma evolução fantástica na melhoria dos níveis da mortalidade infantil e temos resultados exemplares a nível europeu e isso deve-se às vacinas”. Vacinas que, como é do conhecimento generalizado, permitem “evitar doenças que matam crianças”. Rui Passadouro lembra: “depois de mais de 50 anos de experiência e muitos milhões de portugueses vacinados podemos afirmar que [as vacinas] têm um elevado grau de segurança, eficácia e qualidade”.

Com quase três décadas de trabalho nesta área, não é a primeira vez que Ana Silva vê surgir este tipo de movimentos. Recentemente, numa freguesia de Leiria, três famílias adiantaram que não vacinam os filhos, revela. Não são casos isolados, mas sim ondas, modas, entende. E é extenso o rol de factos que Ana Silva usa para rebater os argumentos usados entre os céticos das vacinas. E qual a sua arma? Dados científicos que refutam esses argumentos (como é o caso da relação entre vacinação e autismo, entretanto totalmente desacreditada ou a presença de um derivado de mercúrio nas vacinas que, explica, já não é usado há uma década). Ana Silva aconselha quem tem dúvidas sobre a vacinação a procurar o médico de família ou outro profissional de saúde que  que poderá ajudar ou encaminhar para dissipar todas as questões.

Vacinação obrigatória?

Ana Silva defende a obrigatoriedade da vacinação: “nada justifica alguém morrer porque não foi vacinado”, entende, admitindo ainda a possibilidade de responsabilização dos pais que privam os filhos das vacinas. Rui Passadouro prefere “uma literacia em saúde mais elevada, de modo a que desde cedo todos compreendessem o beneficio individual e coletivo de estar vacinado”, entendendo “as vacinas com um bem e não uma ameaça” (confira em baixo o teor, na íntegra, a entrevista a este médico). Na prática, do ponto de vista da lei, a decisão não está do lado de quem acompanha os avanços científicos, mas sim dos pai. E é nessa condição que Maria Forte já declarou formalmente que não quer as filhas vacinadas (em baixo, confira as declarações da empresária).

98,7

Os últimos dados disponíveis revelam elevadas taxas de vacinação. Em dezembro de 2016, na área do Agrupamento de Centros de Saúde do Pinhal Litoral – Batalha, Leiria, Marinha Grande, Pombal e Porto de Mós – a taxa de vacinação entre as crianças com dois anos de idade era de 98,7%. Entre os seis e os sete anos de idade, essa taxa era de 95%. Entre os adolescentes, o valor ascendia aos 98%.

 

 

Rui Passadouro, médico de saúde pública garante:

"Não existe evidencia cientifica que suporte a decisão de não proceder à vacinação”

 

Rui Passadouro

Rui Passadouro

Quais as principais razões que justificam a necessidade da vacinação?

As vacinas são uma forma eficaz de evitar determinadas doenças infeciosas, por vezes muito graves e com desfecho fatal. Só por isso, e de uma forma geral, já se poderia justificar a sua utilização. O que nos vários setores da sociedade constitui uma utopia, na medicina, com a utilização das vacinas é um facto. Toma-se um medicamento e previne-se um mal maior, a doença.

Assim, a vacinação tem vantagens reais para o individuo vacinado e para a sociedade. A nível individual previne o aparecimento da doença para a qual foi vacinado e as suas complicações, ou seja, liberta o tempo que se perderia com a doença para brincar, aprender e crescer com saúde.

A vacina da varíola foi a primeira a ser descoberta, no final do século XIX, e desde então conseguiu-se erradicar a doença e evitar muitas mortes. A poliomielite, que não está erradicada do mundo, mas que felizmente não existe na Europa devido à vacinação, está bem presente na nossa sociedade naqueles que sofrem diariamente as consequências da paralisia infantil por não terem sido vacinado e não haver vacina disponível, quando eram crianças.

Em termos sociais, a vacinação é fator de excelência na promoção da equidade pois protege a saúde e previne doenças, independentemente do estatuto social e das ideologias. Como consequência, liberta recursos que seriam gastos a tratar as doenças, para os podermos aplicar em áreas que nos trazem progresso social.

Como comenta a decisão de não proceder à vacinação por parte de algumas pessoas?

Não existe evidencia cientifica que suporte a decisão de não proceder à vacinação. A vacinação representa um bem na nossa sociedade e não pode estar ligada a crenças, ideologias ou opiniões pessoais. As opiniões sobre vacinação têm que ser fundamentadas com o melhor que se produz em termos de ciência e esta aponta no sentido do beneficio ser muito maior que o risco.

A decisão de não vacinar é, sem dúvida, consequência de falta de informação fidedigna. Fala-se muito da associação da vacina ao autismo, sendo que o primeiro estudo que trouxe essa informação foi retirado da conceituada revista The Lancet, por ser fraudulento. Se a vacina fosse a causa do autismo, e dando como exemplo a introdução da vacina do sarampo em Inglaterra em 1988, seria de esperar um grande aumento de casos após a sua introdução e isso não aconteceu. Por outro lado, no Japão, deixou-se de usar a vacina VASPR e passaram a usar-se vacinas individuais para cada doença e os números de casos de autismo não diminuíram. Estudos recentes em vários países europeus não conseguiram estabelecer um nexo de causalidade entre a administração da vacina e o aparecimento do autismo. Permanece, contudo, por esclarecer a causa do autismo, sendo a evidência mais forte relacionada com a genética.

 Que conselho daria a quem decidiu não vacinar os seus filhos?

É obvio que, e sem hesitação, recomendaria fortemente a vacinação de imediato. Tratando-se de um filho, e sendo a sua proteção uma das responsabilidades dos pais, mais se justifica esse procedimento.

No entanto, recomendo a cada pai que questione os médicos e enfermeiros, ligados à vacinação, sobre os benefícios da vacinação de modo a tomar a decisão de vacinar de forma livre e esclarecida para que mais tarde não se tenha que confrontar com aquilo que ninguém deseja, a doença de um filho.

Sendo o acesso à informação universal, recomendo, também, a consulta de informação credível, quer da Organização Mundial de Saúde, quer da Direção Geral da Saúde.

Quais são os riscos da não vacinação?

Os riscos da não vacinação são óbvios e não gostaria muito de falar deles pois tudo o que possa dizer não consegue refletir aquilo que passámos recentemente com a morte evitável de uma adolescente.

De uma forma geral quem não se vacina fica suscetível à doença e às suas complicações e, como se não fosse suficientemente grave, ainda serve de veiculo de transmissão da doença para os seus contactantes, pondo-os em risco de contrair a doença.

O risco da não vacinação representa um retrocesso civilizacional ao período prévio ao Plano Nacional de Vacinação, em que a principal causa de morte das crianças eram as doenças infeciosas, propiciando o reaparecimento de doenças infeciosas graves, como o sarampo ou a tosse convulsa, que estavam em fase de erradicação, ou mesmo da poliomielite, que estava erradicada da Europa. A parotidite era causa importante de esterilidade masculina e meningite viral nas crianças e a rubéola causa de deficiência grave nos recém-nascidos de mães não vacinadas. A VASPR é precisamente a vacina que protege com o Sarampo, a parotidite e a rubéola.

Quais são os riscos da vacinação?

As campanhas de vacinação começaram no nosso país em 1965. Depois de mais de 50 anos de experiência e muitos milhões de portugueses vacinados podemos afirmar que têm um elevado grau de segurança, eficácia e qualidade.  De um modo geral, os riscos da vacinação são ligeiros e limitam-se a dor de cabeça, febre ligeira e vermelhidão no local da inoculação que desaparecem sem necessidade de tratamento. Contudo, e raramente, podem verificar-se reações secundárias mais complicadas, como a reação anafilática, para os quais os serviços de vacinação têm a competência necessária para intervir e controlar.

A alergia, sendo um risco, não é uma contraindicação pois os serviços de vacinação dos centros de saúde criam as condições para que se faça a vacina em meio controlado, com a colaboração do serviço de pediatria do hospital.

Considera necessário que se adote a obrigatoriedade da vacinação?

É fundamental e inalienável a liberdade individual, mas não se pode sobrepor aos legítimos interesses da sociedade e aos direitos daqueles que não tiveram oportunidade de se pronunciar sobre o assunto e que podem ser as primeiras vitimas de uma decisão não informada, as crianças.

Não entendo a decisão de não vacinar um filho uma opção válida, mas em vez de tornar obrigatório, preferia uma literacia em saúde mais elevada, de modo a que desde cedo todos compreendessem o beneficio individual e coletivo de estar vacinado e entendessem as vacinas com um bem e não uma ameaça. É um dever dos pais a proteção dos seus filhos e aí incluo a proteção contra as doenças, sendo as vacinas um fator decisivo dessa proteção.

Os pais que recusam vacinar as crianças devem ser responsabilizados criminalmente?

Os pais que vacinam os seus filhos e aqueles que optam por não o fazer têm o mesmo objetivo, a melhor proteção dos seus filhos. Apesar de acreditar que a vacinação é o melhor método de proteção para algumas doenças infeciosas que podem provocar sequelas graves ou mesmo a morte, não concordo com a criminalização. Outra questão diferente é a responsabilização pelos custos do tratamento da doença naqueles que deliberadamente optaram por não ser vacinados, conhecendo os riscos.

 

Maria Forte, empresária de Leiria:

"Ninguém gosta das minhas filhas mais do que eu"

As suas filhas não são vacinadas. Porquê?

Porque em determinada altura da minha vida, questionei-me, até porque fiz formação na área da saúde, questionei-me sobre os prós e os contras da vacinação. E como [a vacinação] não é obrigatória, mas sim recomendada, avaliei o que era recomendado e tomei a opção, com o meu marido, de não seguir esse plano.

Como vê a possibilidade dessa opção colocar em causa a saúde das suas filhas?

Ninguém gosta das minhas filhas mais do que eu, naturalmente. Respeito qualquer opção e decisão das outras pessoas. Não sou fanática, não é um movimento, mas fui em busca e se chegarem ao pé de mim e me mostrarem um documento cientifico… gostaria que me mostrassem um documento cientifico que prove que a vacina não causa nenhum problema na criança. Como não existem documentos que comprovem que a vacina é inofensiva, decidi que ia correr riscos ao vacinar as minhas filhas.

E se surgir um surto epidémico de alguma doença?

Já aconteceu….

Não pondera que as suas filhas beneficiam do facto de a restante comunidade estar vacinada?

Não acredito. Eu já tive uma filha que teve tosse convulsa, se assim fosse… a tosse convulsa estava supostamente erradicada há uma série de anos pela vacina. Isso não é verdade, porque ela teve tosse convulsa e isso foi comprovado no Hospital de Leiria. Se fosse verdade, isso não teria acontecido. Não é verdade, não me parece. Não estou contra a vacinação, mas o que coloco de um lado e do outro da balança… existem estudos que comprovam a questão da composição química da vacina, mas não vou entrar por aí. Mas ao avaliar o que faz bem ou menos bem, [decidi que] não ponho em risco as minhas filhas.

Não toma medicação? Também tem contraindicações e efeitos secundários…

Tem razão. Eu procuro trabalhar a prevenção. Acho que o devíamos fazer todos, quer a nível alimentar, da suplementação e prevenção. Eu antecipo. A maioria recorre aos médicos em SOS, eu quando preciso vou aos médicos, mas faço prevenção. Só recorro à medicação quando é efetivamente necessária.

E no seu caso, considera que a vacinação não é efetivamente necessária?

Não.

Mas tem algum estudo cientifico que o comprove?

E o contrário?

Terá toda a medicina para o comprovar, não?

Não.

Então deixe fazer-lhe outra pergunta: acredita que recomendação para uma vacinação generalizada é feita com base numa convicção que não está minimamente provada?

Não vou por aí, não sou a pessoa indicada para responder essa questão. Se alguém me comprovar cientificamente que a composição da vacina não coloca em risco a saúde das minhas filhas, irei para o primeiro lugar da fila vaciná-las. Na hora o farei.

Como vê a possibilidade da obrigatoriedade [da vacinação]?

Vamos ver, muita agua há de correr. Somos meros espectadores, é uma questão mais política.

E a questão dos pais poderem ser responsabilizados?

Já o sou, tive de assinar declarações em como não queria que as minhas filhas fossem vacinadas. O resto são questões políticas. Não sou contra a vacinação, mas baseado em bastantes estudos que li… gostava que houvesse maior abertura, para que as pessoas possam avaliar o que a vacina faz de menos positivo e tomarem decisões. Não é uma posição extremista.

 

 

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