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reXistência: Tudo isto é fado!

reXistência: Tudo isto é fado!

Cláudia Oliveira, jurista, assessora no Parlamento Europeu rexistencia.co@gmail.com

Escrevo no dia em que o Fado passou a ser Património Cultural Imaterial da Humanidade. Durante anos afirmei que não gostava de fado. Coisas de adolescência, quando julgamos que toda a música que os pais gostam é “foleira” e nós não o queremos ser.

Aprendi a gostar de fado primeiro com o Camané, depois comecei a interessar-me por alguns dos poemas e pelas composições, sobretudo aquelas que de algum modo o reinventam. É inegável que me transporta para um universo melancólico, nostálgico e hoje, à distância posso dizê-lo, para um espaço de saudade. Mas, sobretudo, o fado recorda-me sempre aquele sentimento de fatalidade e pessimismo que me parece ser tão característico da generalidade dos portugueses.

É a sina!

Uma inevitabilidade tão certa quanto é obvia a impossibilidade de agir para a alterar.

É também essa sina que permite que em Portugal, em 2011, as mulheres continuem a ser vítimas de violência doméstica.
Até ao dia 11 de Novembro, de acordo com os dados preliminares disponíveis em www.umarfeminismos.org, foram assassinadas 23 mulheres e registaram-se mais 39 tentativas de homicídio. Relativamente ao distrito de Leiria, registou-se um homicídio e cinco tentativas – o 3º valor mais elevado do país. Este é o fado fatal! Mas além deste há ainda o fado negro e triste que inclui todas as vítimas de outros tipos de ofensas igualmente cruéis, como os maus-tratos físicos ou psíquicos.

É um fado triste e fatal!

Estas mulheres são, na grande maioria dos casos, duplamente vítimas, por um lado dos actos de violência atroz no seu contexto familiar, por outro lado, do estigma social que as culpabiliza e as empurra tantas vezes para o silêncio, deixando-as ainda mais vulneráveis. Não esqueçamos que este é um tipo de violência demasiado envolto em emoções.

A nossa sociedade patriarcal ainda acredita que é a sina das mulheres serem submissas. Suportar e calar! Para os agressores logo se encontra um sem-número de motivos para justificar o acto cruel, que pode ser tão banal e estúpido como um jantar esturrado. Para as verdadeiras vítimas apenas sobra o desdém ou a culpabilização, como se escolhessem elas próprias ser alvo das agressões, seguindo o seu fado.

Claro que poderíamos encolher os ombros e dizer tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado, mas isso faz de nós cúmplices.

Não podemos calar nem continuar indiferentes! Falta reinventar este fado! Mudemos-lhe o poema!

(texto publicado na edição em papel de 2 de Dezembro de 2011)

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