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Tempo incerto: A imprensa

Tempo incerto: A imprensa
José Vitorino Guerra

A imprensa alimenta a opinião pública e é fundamental para conter os abusos do poder, cimentar a cidadania e salvaguardar a liberdade de expressão, princípios básicos de uma democracia liberal que se leva a sério. Todavia, nem sempre a realidade objectiva respeita os princípios consagrados, sobretudo numa sociedade frágil, marcada durante séculos por hábitos censórios, e onde pululam os mais variados mecanismos de condicionamento económico, social e político.

Nos últimos anos, os jornais foram ficando sobre o controlo de grupos económicos ou de empresários, muitos deles estrangeiros, sem que pareça estar totalmente assegurada a independência destes órgãos de informação, nomeadamente em jornais e redacções que não têm uma tradição de autonomia face aos proprietários.

A condição de jornalista tornou-se mais precária e instável, à medida que a imprensa passou a sentir os efeitos da crise e crescentes dificuldades para resistir à concorrência de outros meios de comunicação social, mais atractivos num País pouco dado à leitura.

Além disso, demasiados jornalistas passaram a povoar os cargos de assessor de dirigentes políticos nacionais ou autárquicos e a criar cumplicidades promíscuas com interesses partidários e económicos. Outros deixaram-se embriagar pelo poder da imprensa e passaram a veicular as suas ideias e simpatias políticas, como se fosse mera informação, quando se trata apenas de manipulação.

O jornalismo de investigação praticamente desapareceu e os jornais, frequentemente, limi­tam-se a veicular assuntos mais ou menos inócuos para os interesses corporativos e o poder político, quando não reproduzem as notas oficiosas.

Alguma imprensa, hoje em dia, distingue-se mais pelo que não diz do que por aquilo que noticia.

Sabe-se que não é fácil fazer jornalismo, enfrentar grupos de pressão e informar sobre os actos do poder, principalmente, onde o poder político é rei e senhor e, quase sempre, se mostra muito sensível a tudo o que é publicado a seu respeito.

A independência tem um preço que nem todos estão em condições de suportar ou de pagar, mas a consequência é uma imprensa frágil, conformista e divorciada de um jornalismo livre.

Escrito de acordo com a antiga ortografia

(Texto publicado na edição de 1 de setembro de 2016)

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