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Fotografia. Como são os estranhos de Leiria?

Fotografia. Como são os estranhos de Leiria?

Um fotógrafo de Leiria registou durante meses histórias e imagens de quase duas centenas de pessoas da região. Quase um ano depois de ter começado, “Um estranho por dia” terminou, mas o que fica deste conjunto de fotografias e pedaços de vida mostra mais do que pensamos sobre nós e o que nos rodeia. O REGIÃO DE LEIRIA conversou com Rui Miguel Pedrosa, o fotojornalista de Leiria que integrou o projeto.

 

Qual era o objetivo de “Um estranho por dia”?
Era um desafio para nós fotografarmos e melhorarmos a nível de retrato. Como fotógrafos às vezes, precisamos de fazer retratos. E retratos rápidos. Queríamos melhorar nesse campo. Deu resultado, sentimos que foi bom para nós. A ideia inicialmente era só essa. Mas a dada altura percebemos que havia um impacto social grande. E começámos a preocupar-nos mais com as histórias do que com as fotos. Mas, depois, falámos e concluímos que não, isto tinha de ser fotos: histórias e fotos boas. Conseguir esse pleno não é fácil. Mas fizemos bastantes.

A reacção ao projeto foi surpreendente?
Sim, logo que criámos a página, começámos a ver aquilo a subir vertiginosamente. Não estávamos nada à espera. Sabíamos que havia um projeto semelhante, Humans of New York, que utiliza discurso direto, talvez para defesa deles. Queríamos fazer melhor a nível de fotos, porque era a nossa obrigação, mas às vezes não era possível: ou porque a pessoa não dava ou o momento não servia, ou não estávamos com cabeça, ou porque fazíamos as coisas à pressa…

Mesmo assim superou as expectativas.
Sim, superou bastante. Conseguimos coisas que achávamos que não íamos conseguir, porque também não começámos por pensar nisso. A parte social do projeto foi a melhor: percebemos que, ali, podíamos ajudar pessoas. Isso deu-nos um gozo muito mais especial. Gostamos de ajudar os outros e foi muito gratificante consegui-lo.

Como funcionou essa ajuda?
Às vezes, só por contarmos histórias de estranhos… Há sem abrigo que gostam e outros que não gostam daquele caminho. Às vezes o que os levou àquele caminho… Às vezes basta uma ajuda, um ombro amigo… Este projeto deu a conhecer histórias de pessoas que, depois, foram ajudadas. Muitas pessoas manifestaram-se para ajudar algumas destas pessoas.

Rui Miguel Pedrosa

Era difícil a abordagem das pessoas para participarem no “Um estranho por dia”?
Com os sem-abrigo às vezes era mais fácil. Muitas vezes essas pessoas só queriam falar. Podiam falar de futebol, da vida, do que quisessem… Mas não se enganem: levámos mais “negas” do que as pessoas que conseguimos fotografar. Mas houve pessoas com as quais nunca pensei conseguir falar e consegui. Saber a história dessas pessoas sem dúvida que foi bom.

Houve casos surpreendentes?
Sim. Às vezes íamos falar com aquela pessoas que faz aquilo todos os dias ou que passa ali todos os dias. E pensava: vamos ver quem é aquela pessoa! Gostava que as minhas histórias tivessem uma mensagem especial. Mas tentei falar um pouco com todos, sem estereótipos, como o Miguel [A. Lopes] sempre disse. Toda a gente tem histórias de vida fantástica e então os mais velhos… Adoro falar com os mais velhos. Têm histórias mirabolantes!

Mas também iam atrás da não-história, porque apesar de serem jornalistas, ali não havia notícia…
Sim, mas houve casos em que sabíamos que havia uma história que nos gostávamos de contar. Tentávamos que fossem pessoas estranhas e eram. Mas às vezes sabíamos que ali, de alguma forma, havia uma história. E uma história que nós queríamos saber e contar. Também havia casos em que sabíamos que havia uma história e a pessoa, por muitas voltas que se desse à conversa, não  contava aquela história. Tal como no jornalismo, às vezes não foi fácil apurarmos os factos.

Portanto, alguns eram estranhos mas outros nem tanto…
Nem tanto, sim. Por exemplo, a história do Alcino, o arrumador de carros: eu sabia a história dele, ele é conhecido em Leiria. Foi um caso em que quis contar a história dele. Ele merecia e ainda bem que o fiz, porque isso ajudou-o e foi bom [Alcino conseguiu um tratamento aos dentes a partir da divulgação da sua história no “Um estranho por dia”].

Houve outros casos que o marcaram?
A questão do António. É um sem-abrigo que, pelas palavras dele, gosta de estar na rua. Já tentou morar em casas e quartos onde lhe davam ajuda, mas ele diz que não consegue. Também há a história de uma senhora que está em Angola, que me ligou a dizer que eu tinha encontrado o primo dela, que ela não via há muito tempo e que gostava de ter o contacto dele. Parecia o “Ponto de Encontro” e senti-me bem com isso. Todas as histórias marcaram, mas umas mais do que outras.

Quantas foram?
Cerca de 200 fotografias, cerca de 200 pessoas, estranhos, com quem falei e conversei. Foram mais, porque havia pessoas que só falavam e depois não queriam tirar a foto. As pessoas às vezes só precisam de falar, e não são só os sem-abrigo. Falar com um estranho é bom e houve alturas em que fomos psicólogos. As pessoas desabafavam connosco.

Chegou a um ponto em que o reconheciam através do projeto?
Sim. Nós até dizíamos a brincar: qualquer dia as pessoas atravessam-se à nossa frente só porque querem aparecer. Não faço ideia se isso aconteceu, pelo menos a mim creio que não. Mas algumas pessoas que abordava já conheciam o projeto. Nos Açores, com o Rui Soares, bastava sair à rua, as pessoas aceitavam logo falar. Raramente teve “negas”.

Foi difícil digerir as “negas”?
Quando eram muitas seguidas, sim. Era chato, porque tínhamos o objetivo de queremos fazer alguém. O pior que tive foram sete “negas” seguidas. Fiquei super-chateado. Fui para casa e disse que não ia tentar mais vez nenhuma. Mas havia dias em que fazíamos dois, três, quatro estranhos seguidos. Mas quando não fazíamos, havia pessoas que perguntavam logo pelo “estranho”! Ao todo fizemos 653… É uma boa quantidade.

Consegue perceber a diferença entre os estranhos de Leiria e de outros sítios?
Acho que não… Bem, há alguma diferença. Notou-se que nos Açores as pessoas são mais dadas e sociáveis. Aqui não. A maioria é mais desconfiada e de pé atrás. Aqui houve muito mais “negas”. Às vezes Leiria é só imagem.

Para onde vai o projeto agora?
Temos tido pedidos para voltar. Outras dizem que devíamos fazer um livro. Estamos a tratar disso.

(Todas as fotografias de Rui Miguel Pedrosa podem ser consultadas no site do projeto, aqui)

ML

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