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Arroteia: um mundo por descobrir debaixo dos nossos pés

Arroteia: um mundo por descobrir debaixo dos nossos pés

É um verdadeiro queijo suíço aquele que o Núcleo de Espeleologia de Leiria (NEL) tenta desvendar há 40 anos numa das mais importantes cavidades do país, em Porto de Mós. Encontrar o fim é agora o desafio.

Há 40 anos quando António Fael, um dos fundadores do NEL começou a explorar o algar da Arroteia, já outras pessoas por lá tinham passado. “Durante muitos anos fui lá muitas vezes. Cheguei a desencalhar muita gente, logo no poço de entrada, com 45 metros”, conta. Disse que nunca mais lá voltava. Mas voltou, este ano, aos 61 anos de idade.

António Fael, de 61 anos, explorou a cavidade há 40 anos.

A razão do regresso deve-se a uma “barreira” que foi ultrapassada, ao fim de muitas tentativas – um sifão que enche de água, vinda ainda não se sabe bem de onde, e que tornava impossível a progressão na cavidade. “Prometi que quando conseguissem descer o sifão eu aparecia”, diz. E assim fez.

Localizado em Chão de Pias, concelho de Porto de Mós, o algar da Arroteia é uma cavidade com grande importância para a espeleologia nacional, por ser bastante completa, permitindo fazer progressões verticais e horizontais e aplicar um conjunto de técnicas usadas na espeleologia. É lá também que se fazem os exames de nível II da Federação Portuguesa de Espeleologia.

Para o leitor ter uma ideia, a entrada na Arroteia começa com um poço inicial de 45 metros. Segue-se outro de 10 e chega-se a uma sala, denominada “Sala das refeições”. É lá que os grupos de trabalho se reúnem antes de “mergulhar” na cavidade e durante os intervalos nos trabalhos.

Marco Dias, de 34 anos, é o responsável pela secção NEL-Pénoburaco e um dos atuais promotores das incursões ao algar. Este foi o primeiro local onde experimentou a atividade e ficou fascinado. “Ficou o bichinho e, desde 2012, com maior regularidade, que alimento este entusiasmo pelo desconhecido”, diz.

A espeleologia tem precisamente como objetivo a exploração pelo desconhecido de tudo o que existe debaixo da superfície, preservando a fauna e flora existente e partilhando o conhecimento para o domínio público.

O tal sifão, inultrapassável na década de 1980 e que “bloqueou” as expectativas, foi superado em setembro de 2015, graças à extração permanente da água com recurso a bombas, método que não foi aplicado 30 anos antes, e acordou “o monstro”. Com a época das chuvas, os trabalhos foram interrompidos e retomados apenas no verão deste ano. Era preciso descobrir o que estava para lá do sifão.

O caminho foi desobstruído, seguiu-se uma passagem vertical de quatro metros e uma conduta bastante estreita, onde os esforços da campanha se concentraram este ano, a cerca de 80 metros de profundidade.

Bichinho de explorar voltou
“Foi bastante entusiasmante. Deu para perceber alguns dos comportamentos da gruta, entender que enche tudo de água no inverno e a forma como temos que progredir”, explica Marco Dias. No total, o avanço obtido terá sido de cerca de 50 metros. “À escala da gruta, que tem 2 km, pode não ser muito mas, à escala do que se fez, é muito”, afirma.

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Poços, bifurcações, sifões e várias espécies de fauna fazem parte da vida do Algar da Arroteia, em Porto de Mós

A progressão teve um impacto maior cá fora, à superfície, do que lá dentro, no buraco, já que voltou a acender a chama da curiosidade sobre o desconhecido da Arroteia. Foram muitos os espeleólogos a nível nacional que quiseram conhecer de perto a novidade, e alguns dos que já por lá tinham passado regressaram, como foi o caso, entre outros, de António Fael.

“Fiquei muito contente por voltar. Têm passado ali várias gerações de espeleólogos do NEL. Começou comigo e esta nova leva tem bastante garra e dinamismo”, afirma António Fael, que “enquanto tiver corpo e perninhas” irá continuar a descobrir buracos. “O bichinho é muito grande para ficar em casa”, diz.

Com o inverno e a época de chuvas à porta, a última visita à Arroteia aconteceu no primeiro fim de semana de novembro, data em que terminou a autorização do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC) e do Instituto de Conservação da Natureza e Floresta (ICNF). Não terminou no entanto a vontade de continuar a desvendar a Arroteia.

Em 2017, o objetivo é regressar e desvendar até onde o caminho pós-sifão leva os espeleólogos.

NEL quer voltar às origens 
Fundado em 1981, o NEL teve na sua base de atividade a espeleologia. Depois de vários anos de inatividade e, nos últimos quatro dedicado mais às corridas e caminhadas, o Núcleo prepara-se para regressar às origens em 2017, estendendo o conhecimento de espeleologia “ao comum dos mortais”.

“Os espeleólogos portugueses são uns apaixonados pelo algar da Arroteia. Entendemos que o entusiasmo gerado agora com a passagem do sifão e o regresso de elementos que estavam um pouco afastados, pode levar a um enamoramento da espeleologia que deve ser divulgado a mais pessoas”, refere Luís Barreiro, presidente do NEL.

Para tal, o NEL pretende desenvolver atividades de espeleologia, com diferentes graus de dificuldade, aproveitando o desafio que algumas cavidades da região apresentam e o dinamismo que a comunidade espeleóloga promove sempre que se junta: “convívio e partilha de uma atividade de que se gosta muito e da qual não se consegue desligar”, explica.

(Notícia publicada na edição de 10 de novembro de 2016)

Marina Guerra
marina.guerra@regiaodeleiria.pt

 Fotos: NEL - Pénoburaco

Espeleólogos querem desvendar caminho pós-sifão em 2017 (Fotos de arquivo: NEL – Pénoburaco)

 

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