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Brincar na rua é muito mais divertido do que ver televisão

Brincar na rua é muito mais divertido do que ver televisão

Desta vez o Manuel trouxe o saco para levar as bolotas que ia apanhar com o André. Na primeira sessão do projeto Brincar de Rua, que arrancou no final de outubro no bairro dos Capuchos em Leiria, os novos amigos ficaram encantados com o fruto que descobriram enquanto desvendavam os “segredos” do morro verdejante próximo do parque infantil.

Jogaram também aos três pauzinhos e à apanhada, pintaram no chão com giz às cores, passearam pelo parque e andaram de baloiço.

Já na segunda sessão, e durante a caça às bolotas, André, 6 anos, revelou ter veia de ambientalista e foi apanhando os resíduos que ia encontrando.

Com uma energia invejável depois de um dia de escola, tanto ele como o Manuel, 5 anos, correram morro acima e morro abaixo para dar conta das suas descobertas a Francisco Lontro e Sílvia Martins, os dois “embaixadores do brincar”, responsáveis nesse dia pelas onze crianças que aderiram ao projeto.

Gostaram tanto do primeiro encontro que estavam em pulgas para repetir, contam os pais. “O que ele mais gostou foi de apanhar bolotas, é algo tão simples mas ele adorou”, confirma a mãe de Manuel, Olga Veríssimo, ela que cresceu nos Capuchos e guarda boas memórias do tempo em que brincava fora de casa. Recorda que a mãe a chamava da varanda para ir jantar, algo quase inconcebível para quem vive hoje no centro da cidade.

“Hoje em dia, as crianças estão muito viciadas na tecnologia e não sabem brincar na rua uns com os outros”. E embora o Manuel brinque na escola, com a irmã e com os primos, “acabam todos por estarem muitos fechados”.
A segurança é, por outro lado, ponto basilar deste projeto piloto que nasce em Leiria pelas mãos da Ludotempo – Associação de Promoção do Brincar.

“Talvez por excesso de informação, estamos [os pais] muito mais atentos ao que pode acontece e paranoicos com isso”, admite Olga Veríssimo, que se afirma tranquila com a supervisão de uma dupla de adultos.

“Sabemos que eles estão bem acompanhados e estamos descansados”, nota, por sua vez, Bruno Querido, pai do André, enquanto destaca os ganhos em termos de autonomia. “As crianças de hoje têm algumas dificuldades em resolver situações problemáticas quando estão sozinhas, muito por culpa da educação que lhes dão os pais e os avós”, reconhece.

Brincar livremente
Incentivar as crianças a escolherem livremente as suas brincadeiras, sem interferência dos embaixadores, é o ponto de partida do Brincar de Rua que vive contudo de três regras.

“A primeira é que podem brincar o que quiserem desde que não seja com brinquedos eletrónicos e não seja sempre o mesmo a decidir o que brincar”, explica Francisco Lontro, mentor do projeto.

A segunda está no respeito pelos colegas e pelos embaixadores. “Não lhes dizemos como se devem respeitar”, adianta o responsável, frisando que lhes é atribuída alguma responsabilidade e espaço para definir os seus próprios limites.
Por último, todos deverão acorrer quando soar o apito. Este já foi testado e serve para reagrupar numa situação de “emergência” ou “porque interpretamos que alguma coisa não correu como devia”.

O uso de pulseiras de geolocalização foi entretanto adiado devido à Lei da Proteção de Dados Pessoais, embora Francisco Lontro esclareça que a ideia “não é monitorizar o local onde as crianças estão” mas emitir um alerta caso se afastem do perímetro de segurança definido em mapa enquanto durar a sessão.

Razão de ser do projeto
No texto de apresentação do “Brincar de Rua”, Francisco Lontro socorre-se de vários estudos que apontam para o facto de as crianças portuguesas serem das mais sobrecarregadas com horas letivas, das que apresentam maior taxa de obesidade e das que passam mais tempo por dia em frente a um ecrã – em média, 2h30 por dia.

E refere dezenas de investigações que demonstram que “brincar está significativamente relacionado com o desenvolvimento de competências de resolução criativa de problemas, de comportamentos de cooperação, de raciocínio lógico e popularidade dos miúdos entre pares”.

Numa entrevista ao Observador, Carlos Neto, investigador da Faculdade de Motricidade Humana em Lisboa com uma experiência de 48 anos a trabalhar com crianças, suscitou também o debate com uma provocação.

“Estamos a criar crianças totós, de uma imaturidade inacreditável”, afirmou, denunciando “o sedentarismo, a falta de autonomia dada pelos pais às crianças e a ausência de tempo para elas brincarem livremente, correndo riscos e tendo aventuras”. Fala em “analfabetismo motor” que afeta os mais novos e lembra que “o recreio escolar é o último reduto que a criança tem durante a semana para brincar livremente”.

(Reportagem publicada na edição de 17 de novembro de 2016)

Martine Rainho
martine.rainho@regiaodeleiria.pt

Foto: Joaquim Dâmaso

 

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