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Embra: um pavilhão cheio de história e alma rejuvenescida

Embra: um pavilhão cheio de história e alma rejuvenescida

Kevin, um dos jovens valores do basquetebol do Sporting Clube Marinhense (SCM), nem queria acreditar quando aquele senhor de cabelo branco, com aspecto de avô simpático, lhe disse que tinha praticado a modalidade, não só no clube da Embra como na I divisão nacional. Mas é verdade: Fernando Mendes, 67 anos, um dos dedicados diretores da associação da Marinha Grande, fez parte daquela equipa histórica.

Entre 1966 e 1969, o Sporting Marinhense atingiu o topo do basquetebol nacional e projetou-se num recinto que se tornou famoso por ser temido pelos adversários: o Pavilhão da Embra.

Uma imagem dos trabalhos de construção do pavilhão da Embra, em 1966: a obra custou 480 contos e cresceu com a ajuda de muitos operários

“Era um inferno jogar ali. Não havia pavilhão nenhum em Portugal que tivesse a emotividade do pavilhão do SCM”, lembra Alberto Maia, atleta na geração de Fernando Mendes, também ele um “histórico” do clube. “Havia jogos em que a lotação esgotava e ficavam pessoas à porta a perguntar o resultado”.

Inaugurado em 1966, o pavilhão contribuiu decisivamente para as páginas mais douradas do clube. A construção foi o culminar de um sonho ambicioso, cujas sementes foram lançadas antes.

O ano de 1943 marca a estreia do basquetebol. Foi a primeira modalidade praticada no SCM, num campo de saibro, situado onde hoje está o Pavilhão 2. “Tudo à volta era eucaliptos. Treinávamos com frio e geada”, recorda Fernando Mendes. A atividade desportiva na Embra foi crescendo. Fez-se um ringue de cimento e chegou o hóquei em patins. Mas as condições eram difíceis. “Havia uma caldeira para o balneário: enquanto um tomava banho, outro vinha cá fora, pôr um cavaco para a fogueira aguentar”, lembra, divertido, Alberto Maia.

Em 1961 é formada a escola de basquetebol e, pouco depois, entra em cena uma personalidade marcante: Joaquim dos Santos Rocha. Trabalhador vidreiro, empregado na fábrica Ricardo Gallo, o presidente do clube era filho de um dos fundadores da Sociedade da Amizade e Fraternidade, que deu origem ao SCM. “Era um homem extraordinário, com uma visão que poucos tinham a nível nacional. Um dia acordou e pensou fazer um pavilhão gimnodesportivo na Marinha Grande”, conta Alberto Maia.

Para uma associação com cerca de 150 sócios, o pavilhão era “um projeto megalómano”. Nesse tempo, nem Benfica, Sporting ou Porto tinham pavilhões. “No distrito de Leiria também não havia nenhum”. Em Portugal, clubes com pavilhões só Illiabum, CDUP e Oliveirense, que serviu de modelo para o da Embra. O projeto avançou: compraram-se terrenos à volta, pediu-se um empréstimo de 110 contos, a câmara contribuiu com outros 40 e muitas mãos e vontades de juntaram e lançaram à obra, que custou 480 contos – o equivalente, segundo o portal Pordata, a cerca de 171 mil euros hoje.

O dia da inauguração foi uma euforia. Alberto Maia recorda-se de estar tudo “completamente lotado”. “Era difícil acreditar que aquilo estava ali, era nosso e era para nós”, sublinha.

Com um pavilhão, o clube lançou-se numa espiral de sucesso. “Toda a gente do desporto em Portugal conhece o Pavilhão da Embra”, diz Fernando Mendes. Por ali passaram finais de andebol, de hóquei em patins, de basquetebol, voleibol, ténis de mesa… “Durante dez anos foi uma atividade fantástica”.

Para o SCM, sobretudo as duas primeiras épocas foram marcantes, com a força transmitida pelos apoiantes, que rodeavam o recinto com formato de arena. “A equipa a crescer, a cimentar-se, a beber da bancada toda a exaltação e o ânimo! Era sempre especial”, conta o antigo jogador. Com Alberto Maia, integravam a segunda linha da equipa semi-profissional que terminou em terceiro lugar na I divisão. Era o tempo dos primeiros norte-americanos em Portugal. Como Kit Jones, do Ginásio Figueirense, que ficou para a história por partir uma tabela da Embra, num afundanço. Em 69/70, contudo, dificuldades financeiras levaram ao fim do projeto do basquetebol ao alto nível. Só no início deste milénio o SCM se aproximou desses tempos, disputando a Proliga.

Mas a Embra foi palco de grandes feitos também no hóquei em patins. Muitos se lembram da equipa de juvenis orientada por Rui Verdingola, que enchia o pavilhão e por pouco falhou o título nacional.

Cinquenta anos depois, o pavilhão continua vivo: dezenas de praticantes de hóquei, patinagem e basquetebol treinam ali diariamente. Ao sábado chega a haver seis jogos por dia na Embra.

O pavilhão está agora de cara lavada, após a mais profunda remodelação de sempre, envolvendo balneários, bancadas, iluminação, casas de banho e áreas administrativas. E tem nova alma, com a juventude que assumiu a direção e os jovens que engrossaram a formação nas várias modalidades. Alberto Maia não tem dúvidas: “Quem viveu aquele tempo e vê hoje esta lufada de ar fresco no Pavilhão da Embra, vive com saudade enorme o que passou, mas com muito, muito orgulho o que foi feito recentemente”.

Os 50 anos são celebrados esta quarta-feira, 30 de novembro, num sarau que juntará à noite todas as equipas do clube.

Manuel Leiria
manuel.leiria@regiaodeleiria.pt

(artigo publicado na edição de 24 de novembro de 2016 e atualizado para publicação online)

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