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Opinião: Nunca te olhes ao espelho! (A propósito de Serviços Mínimos de Felicidade [2016], de Paulo Kellerman)

Opinião: Nunca te olhes ao espelho! (A propósito de Serviços Mínimos de Felicidade [2016], de Paulo Kellerman)

Quando o P. Kellerman, na Arquivo (a editora do livro), avisou os presentes de que este ‘romance’ seria duro de ler, imaginei que se tratava de uma continuação da performance que o grupo Veia tinha oferecido ao público como aperitivo, naquele fim de tarde chuvoso de novembro.

Cristina Nobre, professora no Instituto Politécnico de Leiria cristina.a.nobre@gmail.com

No entanto, o crítico é o leitor dos leitores, e considerei que podia abrir essa porta sem receios, transpondo a dureza das palavras. Na verdade, o degrau de abertura diz-nos: “Claro que nos dias bonitos também se morre […]” (p. 5) Todo o primeiro parágrafo nos prepara para o mal-estar da ideia de morte, adensando o desconforto imediatamente de seguida, quando a voz narrativa confessa, no seu jeito sereno de gritar: “O que sei é que a minha filha morreu num dia bonito; e desconfio que a filosofia pouco tenha a acrescentar ao que sei.” (idem).

É assim que logo no primeiro capítulo – Morrer num dia bonito – o leitor fica a conhecer a intriga à volta da qual os restantes nove capítulos irão escavar, progredindo, regredindo, distraindo-se, retomando, surpreendendo, até ao passo a passo do capítulo final: Serviços mínimos de felicidade, que fecha o círculo deste texto e abre a espiral das reflexões e inquietudes do leitor.

Ao saltar do conto, forma breve que lhe tem servido de esboço criativo nas últimas duas décadas, para o romance, forma espraiada onde o mundo ficcional se alarga, P. Kellerman teve também receio da plenitude avassaladora das palavras: e conteve-se.

Comprimiu a voz narrativa no outro-feminino da mãe da filha P. morta, nos seus pensamentos e distrações, nas suas sensações e emoções; permitiu que fossem as recordações desta mulher a escolher das memórias dos tempos passados o que selecionou para amparar o seu presente, fazendo com que alguns capítulos apareçam construídos com analepses e puzzles de instantes doutros tempos cruzados com o agora da dor.

Vejam-se os capítulos sétimo e oitavo: O cheiro da felicidade e Arquivo das memórias. Embora em cada um dos dez exista sempre o espaço (ou o vazio?) que permite ao leitor fazer essa transição de tempos, já que o livro se inicia num tempo passado, um acontecido terminado (pretérito perfeito), e a leitura vai – duramente – reconstruir os antecedentes possíveis até se chegar ao momento da dor, procurando antecipar as parcas possibilidades de futuro e de regresso à esperança, mudando do zero-ação para o só-ação (p.143), como a narradora depreende do conforto telefónico com a voz da sua mãe.

No segundo capítulo – A morte dividida em partes – o leitor percebe que a leitura deste romance será acompanhar o percurso desconfortável da mulher-mãe-amante em sofrimento. Em Quantos segundos haverá numa vida? é o sinalizar textual de como cada ser humano preenche com pensamentos os seus vazios circunstanciais. As dores que as pessoas querem largar leva esta ideia de solidão humana no sofrimento até ao ponto de a iluminar com o contraste chocante com o vigor e renascimento da natureza.

O quinto e o sexto capítulos – Proteger o mundo de ti e Três iogurtes – transportam-nos para o relacionamento com o tu (Afonso) e o espaço monótono, melancólico e inevitável da sua deterioração e estiolar final.

Embora os dois capítulos seguintes sejam riscados por laivos de esperança dos passados em que a felicidade (ainda) era um horizonte, é no nono – Sonâmbula – que toda a intriga converge para o âmago romanesco deste livro: continuar a caminhar, trôpega e desequilibrada, com lampejos dos resquícios de felicidades deixados por instantes fugazes do passado (como a descoberta da primeira gravidez, tão imprevisível como a urdidura da morte).

O último capítulo – Serviços mínimos de felicidade – conforta um pouco o leitor com algumas evidências do senso comum (“Habituamo-nos a tudo”, p.142; “Posso tentar. / Avanço, passo após passo.”, p. 145), que são tudo menos um final feliz dos filmes palermas.

P. Kellerman falava a sério quando avisou o leitor. As palavras são perigosas e podem magoar, como aconteceu com o espelho onde a narradora cuspiu, aos solavancos, as suas raivas e dores. E é como se o P. Kellerman também não conseguisse deixar de se olhar ao espelho, disfarçando nos inúmeros comentários entre parêntesis que vai deixando agarrados à voz da narradora feminina. Afinal, quem comenta o quê? Quem se está a ler, refletido no espelho? O autor? O texto? O leitor? O crítico?

Estas palavras são a comezinha e humana possibilidade de o crítico dizer que, tal como o leitor, também ele se viu ao espelho neste denso e duro ‘romance’ e deixa a imagem do que viu refletido neste parêntesis (como uma porta fechada…).

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