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Pódio. Nem quando ganham, elas conseguem lá chegar

Pódio. Nem quando ganham, elas conseguem lá chegar

Sábado, 29 de outubro, as três primeiras classificadas da prova de BTT em torno do Mosteiro da Batalha subiram ao pódio, mas não levaram para casa uma retribuição igual aos três primeiros atletas masculinos.

A Associação Recreativa Batalhense (ARB), entidade que organiza a prova de resistência Urban Night MTB, anunciou “prémios monetários no valor de 500 euros”, mas repartiu-os de forma diferente em função do género.

Para os homens, prémios de 150, 75 e 50 euros a atribuir, respetivamente, ao primeiro, segundo e terceiro atleta mais bem classificado. Em femininos, aos três primeiros lugares foram reservados prémios no valor de 100, 50 e 25 euros.

A atribuição de valores diferentes para atletas masculinos e femininos valeu aos organizadores da prova duras críticas nas redes sociais, nomeadamente na página do evento no Facebook.

Contactada pelo REGIÃO DE LEIRIA, a direção da ARB justificou a existência de diferenças no valor dos prémios com o facto de “existirem escalões diferenciados, sendo que o masculino tem mais de 95% do total de inscritos em todas as edições deste evento”.

Para a ARB “não se trata de uma discriminação de géneros, apenas se trata de igualdade de valor de prémios entre participantes de cada escalão”. Ou seja, “uma vez que os atletas do género masculino são em maior número do que as do género feminino, então o valor do prémio será maior”.

Para Catarina Canha, antiga diretora da Federação Portuguesa de Ciclismo, esta “é uma forma de discriminação”. A atleta explica que a prova “não deixa de ser tão exigente para os homens como para as mulheres, porque o percurso é o mesmo e o número de horas é o mesmo”.

Porém, a resistência noturna da Batalha não é o único caso em que a recompensa difere em função do género. Catarina Canha afirma que “os prémios são diferentes para homens e para mulheres na generalidade das provas de BTT”, com o argumento de que “o número de participantes femininos é muito inferior ao número de participantes masculinos”.

Por exemplo, acrescenta a atleta de Alcobaça: “se numa prova houver 10 mulheres e houver prémios para os 10 primeiros homens e para as 10 primeiras mulheres, todas elas levam prémio”. Nesse caso, entendem as organizações que não se pode falar em competição.

Duarte Marques, diretor da Federação Portuguesa de Ciclismo para o BTT, reconhece que em provas nacionais, a discrepância na atribuição dos prémios para mulheres e para homens é de quase metade do valor.

Ressalva, contudo, que nas provas internacionais integradas no calendário UCI (União Ciclista Internacional) os prémios monetários a atribuir a homens e mulheres são iguais. E esta será, no seu entender, a evolução natural.

“É uma questão de tempo e pode estar mais próximo do que se possa imaginar. A meu ver não há diferença. Homens e mulheres são atletas e o esforço que fazem é o mesmo”, argumenta.

Pódios vazios no atletismo

O BTT está longe de ser a única modalidade em que se encontram diferenças no reconhecimento do desempenho dos atletas. No atletismo, parte das provas exibe igualmente essa distinção.

António Reis, presidente da ADAL – Associação Distrital de Atletismo de Leiria sublinha que tem sido feito um esforço de sensibilização junto das entidades organizadoras com o intuito de igualarem os prémios, mas a discrepância permanece.

“Antigamente as organizações só tinham um ou dois escalões nos femininos. Felizmente isso está a mudar, porque as mulheres também já vão aparecendo na competição”, esclarece o dirigente.

Contrariamente a outras modalidades, no atletismo a discrepância verifica-se mais na organização dos escalões do que na atribuição de prémios monetários que é pouco frequente.

Na Corrida do Bodo ou no Grande Prémio da Amieirinha, competições em que existem prémios monetários, eles são atribuídos em valor e em número igual a ambos os sexos.

Os escalões, porém, permanecem desiguais numa boa parte das provas, sobretudo entre atletas veteranos. Na prática, isso significa que é menor o número de mulheres que pode subir ao pódio e ver o seu desempenho reconhecido.

“Se fizermos mais um escalão ou dois, haverá situações em que o pódio não está completo”, sustenta Licínio Silva, treinador e coordenador de camadas jovens do Grupo Alegre e Unido da Bajouca.

A mesma explicação é apresentada por António Vieira, um dos responsáveis pela organização da Meia Maratona da Nazaré: “fazer uma categoria com cinco participantes para dar prémios aos três primeiros perde um bocado a piada”.

Mas depressa admite a fragilidade do seu argumento: “Já há uns anos que não temos atletas em cadeira de rodas e continuamos a manter esse escalão à espera que nos apareça alguém, porque se aparecer não queremos excluir. E agora pergunta-me: ‘porque é que não fazem isso em relação às mulheres?’”

António Vieira reconhece que “há uma questão cultural que vem detrás” que acredita vir a ser corrigida no futuro. Da mesma forma que o aumento do número de participantes mais velhos levou à abertura de vários escalões, a crescente participação das mulheres terá o mesmo efeito, no seu entender.

A justificação de que não haveria mulheres para subir ao pódio se existissem para elas o mesmo número de escalões que existe nos homens, não convence Carla Leite, que a meio de outubro se classificou em terceiro lugar na geral feminina e em primeiro no seu escalão, na vertente curta do Trail Sem Pavor, em Évora.

Carla Leite, que corre pelo Clube SEM de Leiria e conta com um palmarés invejável, salienta que os pódios estão vazios “quando há atrasos na entrega dos prémios”. Conta que em alguns dos trails as provas são ao sábado e a entrega de prémios ao domingo. “Muitas vezes vou ao pódio e as minhas colegas foram-se embora”.

A atleta confirma que, nestas provas, a grande diferença entre homens e mulheres está nos escalões e, por indignação, já tomou a decisão de não participar nalgumas competições.

Mas o regulamento nem sempre é claro e este ano já lhe aconteceu participar num trail que não contemplava geral feminina. “Fomos de propósito para cima do pódio e tirámos fotos como titulares da geral que não existiu”.

Para que episódios como este não se repitam, Carla Leite defende que é necessário “ganhar respeito pelas mulheres”. “É muito injusto irmos a provas e ainda termos este tipo de ‘prémio’”, diz com ironia.

Mas nem só de maus exemplos vive a região. Casimiro Gomes, presidente do Clube de Atletismo da Batalha, refere que na São Silvestre do seu concelho não há qualquer diferença entre géneros, nem em escalões nem em prémios. “Temos que mudar, cada vez há mais mulheres a correr”, defende.

Na Meia-Maratona da Nazaré não há prémios monetários, mas a partir dos 35 anos, os homens têm seis escalões em que podem participar (M35, M40, M45, M50, M55 e M60) e as mulheres três (F35, F40 e F50)

Patrícia Duarte
patricia.duarte@regiaodeleiria.pt

(Reportagem publicada na edição de 27 de outubro de 2016, editada para republicação online)

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