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Helena Vasconcelos

Helena Vasconcelos

Médica

hml.vasconcelos@gmail.com

O meu diário: Senhor Leonel

Fev 5, 2018 | Opinião | 0 Comentários

Morreu o Sr. Leonel. Morreu sozinho em casa e foi encontrado, morto pela polícia, que nós chamamos porque não abria a porta nem atendia o telefone.

O Sr Leonel morava em Leiria, não sei se era de cá, mas morava aqui na cidade, numa casa muito modesta, com vista para uma grande nogueira. Apanhava as nozes do chão e juntava-as em pequenos saquinhos que fazia questão de oferecer a quem ele gostava e que eramos nós que lhe íamos levar comida.

Não tinha filhos conhecidos, apenas um sobrinho que o visitava de vez em quando. Este ano, no Natal teve a visita de um irmão que já não via há nove anos. Ficou tão feliz o Sr. Leonel! Talvez tivesse tido uma vida tortuosa e acidentada, adivinhávamos isso nas entrelinhas, não era de se lamentar.

Estava dependente do oxigénio que fazia de uma forma permanente. Não ligava sempre a máquina porque estava sempre a fazer contas aos Kwatts do contador da luz e já tinha chegado à conclusão que o dinheiro que tinha para a luz não lhe ia chegar. Quando lhe perguntámos porque não ligava o aquecedor, respondia que não era preciso, que vestia camisolas. E ele magrito devia ter frio! A casa era húmida e fria. Ela mantinha-a arranjada e asseada. Conhecia os voluntários pelo nome e perguntava sempre pelos que não apareciam. Adotou-os a todos como família

Quando no hospital lhe conseguiram a arranjar a máquina de oxigénio portátil parecia uma criança, não quis que informássemos os voluntários da novidade porque queria ser ele a contar, queria ser ele a surpreender.

Nunca se queixava, nem de fome, nem de frio, só reclamava dos kwatts no contador.

Morreu sozinho e provavelmente daqui a uns tempos ninguém se vai lembrar. Eu guardo a foto que tirei com ele e a minha filha neste Natal, com o bolo rei oferecido. Os voluntários hão de recordá-lo.

Fico a pensar que ninguém devia morrer sozinho. O Sr. Leonel está algures debaixo de uma nogueira, num lugar qualquer onde não há contadores da luz, nem reformas de miséria, nem solidão. Até um dia Sr. Leonel.

(Artigo publicado na edição de 1 de fevereiro de 2018)

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