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Passageiro do tempo: Pobres portugueses

José Manuel Silva

José Manuel Silva

Professor/gestor do ensino superior

jmsilva.leiria@gmail.com

Os números valem o que valem, mas diz o INE que há 2 milhões e 400 mil portugueses em risco de pobreza. Esta linguagem técnica não disfarça a situação de um país que ouve todos os dias reivindicar reformas antecipadas, aumento das pensões, melhores salários na Função Pública, o cumprimento das 35 horas semanais em todos os serviços, o 9/4/2 nos professores, e por aí fora como se fossemos um asilo estatal. E os pobres que são muito mais do que os funcionários públicos, quem se preocupa com eles?

“Tenha paciência” é a frase que me ecoa na cabeça quando me lembro da minha infância nessa terra de brutais desigualdades, que era o Alentejo, e que era lançada aos pobres que pediam esmola como uma lança direta ao coração. Paciência para carregar a sua cruz, conviver com as desigualdades, ver os seus filhos definharem sem comida, aceitarem uma situação social que os condenava à miséria pela simples razão que descendiam de gente sem terra.

Muita coisa mudou desde então, mas a pobreza continua, modernizou-se como tudo, mas nem por isso é menos vexante para todos nós.

Outro dia vi um sem-abrigo que pedia esmola, mas que ocupava o tempo a teclar num smartphone. Escandalizei-me, sem razão, o homem tem direito a ter um telemóvel, como eu, é uma forma de comunicação indispensável nos dias de hoje. O que queria eu? Que o homem permanecesse na idade da pedra? O progresso não está vedado aos pobres, mas o drama é que não deixam de ser pobres.

Dia 18 é o Dia Mundial dos Pobres, razão mais do que suficiente para pensarmos numa realidade que faz de nós um dos países com mais pobres da Europa; pois é, temos a Web Summit, mas nada de ilusões, um em cada quatro portugueses são pobres, que é uma forma de dizer que estão privados das condições necessárias para ter acesso a uma vida digna. E o que faz cada um de nós para ajudar a reduzir a pobreza?

(Artigo publicado na edição de 15 de novembro de 2018)

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