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Tempo incerto: Eleições

José Vitorino Guerra

José Vitorino Guerra

Um número inusitado de cidadãos vem abdicando do seu direito de voto e parece preferir que outros se ocupem da tarefa de decidir o destino colectivo. Os motivos são vários e se não caem no âmbito da apatia cívica, colhem razão nas múltiplas significações do desencanto em relação à prática política e à vida pública.

Apesar das consequências gravosas em que podiam ocorrer, tempos houve em que muitos lutaram para que todos tivessem direito de voto e liberdade para expressarem a sua opinião.

Durante o Estado Novo, a máquina repressiva era pouco dada a contemplações para com os adversários da “Situação” e aproveitava as farsas eleitorais para actualizar os ficheiros e fazer sentir diferentes formas de repressão.

Agentes da PIDE, denunciantes e as mais diversas autoridades uniam-se num esforço comum de identificação de “inimigos” e de colheita de informações. Em Leiria, durante a campanha de Humberto Delgado, para as eleições presidenciais de 8 de Junho de 1958, o comissário Correia Bessa descrevia, em relatórios, as reuniões ocorridas no consultório do médico Serafim Lopes Pereira ou no escritório do advogado Vasco da Gama Fernandes.

Os presidentes das Câmara Municipais e das Juntas de Freguesia enviavam ofícios para o governador civil com os nomes dos “mais suspeitos”. A partir dos dados enviados pelas autoridades autárquicas e policiais, o governador civil produzia relatórios pormenorizados com os nomes, as profissões e a hipotética simpatia ideológica dos opositores identificados.

Alguns párocos prestaram informações às autoridades sobre a “oposição”, mas o governador civil não deixa de reconhecer que “ o problema de votar e de votar bem” tinha sido colocado “em termos demasiado vagos” na Diocese.

O presidente da Comissão Distrital da União Nacional sentiu-se “vexado” por o professor primário Aníbal Madeira, de Monte Redondo, filiado na UN, apoiar Delgado e presidir à Casa do Povo. O professor foi demitido de funções.

A oposição queixou-se de prisões, demissões compulsivas, restrições no acesso aos cadernos eleitorais, condicionamento de reuniões e de propaganda, irregularidades e falcatruas eleitorais.

Não havendo sufrágio universal, estavam inscritos nos cadernos eleitorais do Distrito 64.158 eleitores e votaram 43.744, segundo dados do Governo Civil.

Escrito de acordo com a antiga ortografia

(Artigo publicado na edição de 6 de junho de 2019)

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