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O meu diário: Sabores

Helena Vasconcelos

Helena Vasconcelos

Médica

Da semiologia da boca há muito que falar e tenho doentes que experienciam vários sabores no palato, a maioria deles desagradáveis. Alguns são quase tão inverosímeis como os enólogos que falam em madeiras e frutos silvestres chegando ao detalhe do carvalho e das amoras silvestres. Chego a equacionar que alguém despejou no lagar uma saca de amoras por engano mas a solenidade e convicção com que relatam os sabores é no mínimo fantástica.

Os meus doentes queixam-se mais frequentemente de amargos de boca e boca ácida. Há quem refira boca a saber a dióspiro daqueles que “encarraspam” na língua, boca a saber a papel de música (típica de uma noitada com álcool na véspera) e boca a saber a ferro. No limite há quem descreva o gosto do fel na boca e outros admitem que tanto ácido possa provocar buracos na língua como se tratasse de um queijo suíço. Mas após 30 anos de Medicina um doente a propósito deste tempo meio invernoso que se viveu em Junho referiu que ainda não lhe sabia a Verão. Achei que os sabores de Verão tinham que ver com a gastronomia da época e com os cheiros da época e não com o tempo. Ele refutou que quando saía de casa e ia chover sentia um gosto metálico e quando estava calor a boca lhe sabia a xarope para a tosse. Por um momento pensei que estivesse a gozar comigo, mas não, a conversa era séria e consequente. Já meia rendida ao talento e capaz de lhe dar razão perguntei se usava este talento para algo mais específico que não o boletim meteorológico ao que ele esclareceu que era da confraria do vinho do Porto e fazia por lá avaliações dos vintages. Lá está, gente especial com sentidos desenvolvidos!

(Artigo publicado na edição de 11 de julho de 2019)

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