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Opinião: Finalistas de 1968/69

Francisco Lacerda

Francisco Lacerda

Professor na Universidade de Estocolmo

No sábado passado estive em Leiria para o encontro do meu curso de finalistas de 1968/69 do Liceu Nacional de Leiria. Há 50 anos por esta altura estávamos ocupados com as provas finais do 7º ano e os temidos exames de aptidão à Universidade – entre alguns bailaricos dos Santos Populares nas noites quentes de verão. Tinha sido um ano letivo intenso e nesse tempo o aproveitamento académico dos rapazes da nossa idade podia ter consequências práticas imediatas e dramáticas. Sem progressão aceitável nos estudos não havia adiamento do serviço militar obrigatório e era quase certa a mobilização para a guerra colonial em África.

Na Química celebrava-se o primeiro centenário da tabela periódica proposta por Dmitri Mendeljev, mas não era nisso que pensávamos. Além do estudo, havia que manter a tradição do baile e do sarau de finalista que, reforçados pelas receitas de publicidade do comércio e da indústria da região de Leiria, iriam financiar a famosa excursão a Espanha e o Livro de Finalistas, com as caricaturas, os versos e as dedicatórias da praxe. Contratámos os “Charruas” de Santarém para tocarem no Baile de Finalistas na sala de bailes do Hotel Eurosol (hoje garagem), fizemos o Sarau de Finalistas no ginásio do Liceu e produzimos o Livro de Finalistas para partirmos nas férias da Páscoa para a nossa excursão a Espanha, onde viajámos pela Galícia, Astúrias, Castela e Madrid, enquanto a televisão espanhola se esforçava por minimizar o escândalo de “A desfolhada” – a canção com que Portugal concorria no festival da Eurovisão em Madrid.

Pouco depois de regressarmos a Leiria desencadeou-se em Coimbra a Crise Académica de 1969. O Presidente da Associação de Estudantes pediu para falar durante a cerimónia da inauguração do Edifício das Matemáticas com a presença do Presidente da República e do Ministro da Educação, mas foi impedido de o fazer. Entretanto, em Leiria pouco ou nada sabíamos dos protestos estudantis em Coimbra, das perseguições, prisões e mobilizações compulsivas para a guerra em África. É que, por muito estranho que isso hoje nos pareça, no regime totalitário do Estado Novo em que então se vivia, o direito à palavra e à informação era rigorosamente controlado de forma a combater quaisquer sinais de crítica ao governo, e em regimes totalitários é sempre arriscado falar de política.

Em contraste, um acontecimento de que os finalistas falaram muito foi o sismo na madrugada da sexta-feira dia 28 de fevereiro de 1969, às 3h41m. Nós, os de ciências, estávamos nessa altura a estudar os movimentos tectónicos nas aulas de Geologia da Dra. Celeste, mas eu não dei por nada e tive pena de ter dormido durante todo o sismo. Não deixei por isso de aproveitar a oportunidade para explicar ao resto da família o que tinha aprendido sobre abalos premonitórios e réplicas, mas os meus conhecimentos não foram muito apreciados. Desforrei-me 32 anos mais tarde, no dia 28 de fevereiro de 2001 quando um sismo de intensidade de 6,8 abalou Seattle às 10h54m. Eu estava na Universidade de Washington e gostei inicialmente da oportunidade, mas o tremor durou 40 s e ao fim de uns 10 s achei que já tinha percebido como era e que, por mim, não precisavam de se incomodar mais. As pernas tremeram-me como varas verdes o resto do dia, mas gostei e fiquei então a saber como é!

Terminado o período dos exames em 1969, chegou finalmente o momento de testemunhar a chagada do módulo lunar à Lua e os passeios lunares de Neil Armstrong e Buzz Aldrin na madrugada de 21 julho! Foi um ótimo começo de férias!

E agora, no sábado passado, relembrámos episódios da nossa história comum e despedimo-nos entusiasmados como depois de uma excursão!

Até breve, amigos finalistas de 1969!

(Artigo publicado na edição de 4 de julho de 2019)

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