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Devo eu matar-me?

Sérgio Martinho

Sérgio Martinho

Médico interno de Psiquiatria no Centro Hospitalar de Leiria

Estou em crer que, em certos momentos de paixões argumentativas, haverá gente a pensar que sim. Os absurdistas, porém, acreditam que não, que não me devo matar, que, aliás, ninguém se deve matar, que essa não é a solução para o problema do absurdo da vida. Parece, no entanto, pouco razoável colocar uma questão deste tipo no domínio da ética, no domínio daquilo que devo ou não devo fazer; este é, aliás, um dos problemas da análise filosófica sobre o suicídio: parte de um ponto de vista lúcido e desapaixonado. Numa frase demasiadas vezes citada, talvez por ser a abertura do ensaio O Mito de Sísifo, Camus diz-nos que o único problema filosófico verdadeiramente sério é o do suicídio, isto é, julgar se a vida merece ou não ser vivida. De facto, pouco mais importa. A eloquência da frase é inegável e deve merecer a nossa consideração, uma vez que é com base na vida que reside o empreendimento humano. Porque vivemos? Como contraponto, surge necessariamente a contemplação reversa e igualmente pertinente: devo eu matar-me? No entanto, a ética, não como disciplina, mas como característica positiva, apesar de ser desejável, pode, em momentos inconvenientes, insinuar-se com uma inexplicável dureza. Devo eu correr a maratona? É uma pergunta ética, até divertida, para uma pessoa saudável, com duas pernas funcionais e pulmões arejados. Por outro lado, a mesma pergunta feita por uma pessoa com duas pernas partidas adquire uma frieza injusta que não lhe fará aumentar a estima por si própria. Na doença, a ética torna-se violência.

O mesmo acontece para a nossa pergunta inicial. Se devo ou não matar-me, se devo ou não viver, são perguntas sobre a existência e, apesar de certamente mais complexas, não são mais impertinentes ou mais inconvenientes. Não são mais embaraçosas e certamente não há razões para que sejam mais votadas ao silêncio do que quaisquer outras.

No entanto, este momento ético, pela sua relação com aquilo que nos é mais íntimo e significativo, surge, muitas vezes, não de uma vontade de esclarecimento, mas de um intrincado estado patológico, que não nos permite o acesso à lucidez necessária para lhe dar uma resposta esclarecida. Se é verdade que nem todos os suicídios resultam de doença mental, como tão eloquentemente demonstrou Durkheim, não é menos certo que cerca de noventa por cento das pessoas que se suicidam padecem de uma doença mental, com maior predominância da depressão. Na doença, a ética pode dotar certos estados de uma dureza inusitada.

Setembro é o mês escolhido para simbolizar os esforços dirigidos à prevenção do suicídio. Sendo certo que seria impossível impedir todas as mortes autodeterminadas, esta certeza não traduz uma impotência, mas antes um apelo àquilo que podemos fazer. É possível tratar. Se uma esmagadora maioria das pessoas que se suicidam padece de uma doença mental, sejamos, então, mais activos a procurá-la e a tratá-la. O primeiro passo é falar sobre isso. Quanto ao suicídio, não é verdade que falar em suicídio motive as pessoas a suicidarem-se. Na verdade, aumenta o espaço para se libertarem um pouco dessa opressão.

Assim, se alguma vez se questionar se se deve ou não matar, o melhor será procurar ajuda para estar seguro de que o seu questionamento ético não é mais do que isso, e para que, se for, ter a compreensão e o tratamento necessários nos momentos mais duros.

Sabemos, como preconiza Camus, numa nota de esperança, que é preciso imaginar Sísifo feliz. Mas sabemos também que, muitas vezes, é a imaginação que dói e ninguém deve ser culpado por isso.

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