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O meu diário: Adolescentes

Helena Vasconcelos

Helena Vasconcelos

Médica

Essa coisa do bullying parece uma coisa moderna mas é um problema de todos os tempos. Quem é que da minha idade não se lembra de como era tratado o gordo, o caixa de óculos, o gago e outros, que fugindo um pouco aos ditos padrões de normalidade sofriam a perseguição ávida de uns garotos aparvalhados com a mania de se destacarem à custa da fragilidade dos outros. Costumo dizer que quando desejo ser mais nova não recuaria abaixo dos 30 porque antes disso o crescimento implicou algum sofrimento. O ser aceite pelo grupo parecia muito importante quase mais do que o amor dos pais e da família. O conflito entre fazer o que achamos certo e o que é aprovado pelos outros cria dilemas interiores por vezes muito inquietantes.

Ser adolescente é uma coisa complicada e por isso eles requerem muita paciência e dedicação sob pena de os perdermos para o grupo ou para eles próprios. Na adolescência é tudo muito: muito triste, muito alegre, muito amor, muito ódio. E se nós educadores também estivermos pouco serenos só vamos agravar aquele terreno de base que, por si só, já está pantanoso. Os meus filhos estão grandes, mas tenho muitos doentes adolescentes. E vejo pais tão desorientados quanto eles, tão dramáticos quanto eles. C’os diabos, alguém tem de ter alicerces, tem de ter fundações, não pode voar com o sopro de qualquer lobo mau que por aí apareça. Eles têm de saber que os pais têm convicções e valores inabaláveis e que não são negociáveis. Que são o melhor porto de abrigo. Tudo o resto pode ser flexível. E sobretudo que têm um coração cheio de amor para lhes dar, e que sabem que, apesar de eles não acreditarem, com a idade quase tudo passa.

(Artigo publicado na edição de 24 de outubro de 2019 do REGIÃO DE LEIRIA)

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