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Carlos do Carmo: “Há qualquer coisa a cantar em mim de que as pessoas gostam”

No dia em que se despede dos palcos e é condecorado pelo primeiro-ministro com a medalha de mérito cultural, pelo seu “inestimável contributo” para a música portuguesa, recuperamos a entrevista que deu ao REGIÃO DE LEIRIA, quando atuou no Teatro José Lúcio da Silva, a 15 de janeiro de 2016.

Carlos do Carmo afirmou, na altura, que “vale a pena voltar ao local onde fomos felizes” e Leiria era um desses palcos. Em contrapartida, lamentava nunca ter atuado na Nazaré ou na Marinha Grande.

O fadista atua este sábado, 9 de novembro, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, naquele que tem sido anunciado como o seu último concerto.

Carlos do Carmo atuou no Teatro José Lúcio da Silva, a 15 de janeiro de 2016, com sala esgotada Foto: Sérgio Claro

 

Patrícia Duarte
Jornalista
patricia.duarte@regiaodeleiria.pt

Atuou pela primeira vez em Leiria em 1998. Como está o Carlos do Carmo 18 anos depois?
Não estou zangado com o Carlos do Carmo, o que pode ser já uma resposta que lhe queira dizer qualquer coisa. Continuo a gostar apaixonadamente daquilo que faço. Fico maravilhado quando me dizem que as salas estão esgotadas 15 dias antes. Deixa-me maravilhado porque não sou um cantor da moda. Canto há 51 anos e são tantos anos a ouvir-me que as pessoas podiam dizer “vai-te embora, já estou farto”, mas é ao contrário, é muito curioso.

O Carlos do Carmo não passa de moda.
Não creio que me tenha prestado muito a essa situação de moda.

Tem uma relação muito forte com o público. É uma relação não tanto de idolatria…
Não, nem eu alimento isso.

…mas é uma relação de grande afeto.
Sabe, ninguém gosta de ser maltratado. Se eu realmente ao longo desta vida não tratei mal o público que é quem me sustenta… É bom ver isto também no outro lado que é o lado material. Quem é que me deu a vida que eu tenho, comprando os meus discos, assistindo aos meus concertos e pagando os seus ingressos? Quem é o público? Ah é uma entidade anónima. Calma, não é bem uma entidade anónima. Não sei fazer o levantamento sociológico das pessoas que gostam de me ouvir cantar, mas nunca me cruzei com ninguém que me dissesse assim diretamente “não gosto de o ouvir cantar”. Com certeza que há, é legítimo isso. Esta heterogeneidade tem uma coisa muito interessante também: uma espécie de passagem de testemunho geracional. Tenho muitos concertos em que canto para três gerações.

Chega a ver crianças nos seus concertos?
Estou a falar em adolescentes dentro dos 16, 17 anos. Não sou o cantor ideal para aquele jovem…

Mas gosta de os ver lá…
Muito e eles aprendem a ouvir-me, porque os pais transmitem o que quer dizer aquilo que eu estou a fazer. Eles têm a música deles, de geração, mas vêm ouvir-me com uma ternura, um respeito, portanto está passado o testemunho.

O que ajuda também a propagar o seu nome no tempo é a facilidade com que integra projetos diferentes, com músicos novos, de reinvenção do fado. Gosta de participar nestes projetos. Porquê?
Tenho hoje plena consciência de que a vida é um empréstimo. Quando tive alguns problemas de saúde mais graves, senti a finitude e senti-a de uma forma que foi verdadeiramente uma sacudidela na minha cabeça e disse “eu tenho de aproveitar este tempo, não posso estar parado, não posso estar encostado aos louros”. Ninguém está à espera, gravo um disco com o Bernardo Sassetti. Ninguém está à espera e gravo um disco com a Maria João Pires. E ninguém está à espera, gravo um disco com os miúdos. A diretora da minha gravadora não me larga, eu sei lá, se me perguntar qual é o meu próximo disco, não faço ideia, mas alguma coisa tem de acontecer porque não pode ser mais do mesmo.

Estabeleceu para si um momento para deixar os palcos?
Não, curiosamente não estabeleci, isso está mais entregue à minha família. A minha família é muito rigorosa e quando me chamarem à atenção que é o momento, que não estou bem em palco e posso estar a degradar a imagem construída numa vida, nesse dia paro. Não tenho problema nenhum em parar. A pena que posso sentir é gostar muito do que faço.

Ver que tem salas permanentemente cheias, isso fá-lo sentir-se um pouco mais seguro quanto ao concerto? Como é que se sente agora?
Não, não. Mais responsável, percebe? Mais inseguro. O grau de exigência… Toque nas minhas mãozinhas…

Estão frias.
Isto já não tem a ver com a rua, tem a ver com o estado de espírito, estou a caminhar para a concentração. Foi sempre assim e piorou, porque quando eu tinha 40 anos e me diziam “está cheio”, eu dizia “está bem”. Agora chego aos 76 anos e dizem-me “está cheio aqui, está cheio ali”, você até se assusta. A empatia cria-se através do afeto. Não serei o melhor cantor do mundo nem tenho essa pretensão, mas há qualquer coisa a cantar em mim de que as pessoas gostam. Eu deixo cantar tudo. É tudo cantado, nada é debitado.

Qual é a diferença?
Ui, é total. É total. A diferença entre cantar e debitar, oh, é um mundo de diferença, mesmo que as pessoas não sejam muito letradas. Sabedoria popular é sempre a sabedoria popular. As pessoas distinguem isso: “este tipo está a tratar-me bem”. E depois fazem uma reflexão económica e dizem assim: “abençoado dinheiro que eu gastei para vir aqui”. Isto não é assunto que dê para eu brincar, não é para brincadeiras, é uma coisa muito séria.

Como é que olha para este número tão grande de artistas novos a surgirem no fado?
Olho com muita alegria para o facto de há 15 anos para cá surgir tanta matéria-prima. Chamo a isto matéria-prima. Queria dizer-lhe que tem de haver alguma contenção em relação a isto. Quando falamos da história do fado, mais concretamente do século XX, dos fadistas que se destacaram, há de reparar que falamos de seis ou sete. Cantaram centenas. Corredor de maratona, criador, criativo, isso não é fácil. Expresso a minha alegria por toda a gente que está a chegar, quero acreditar que algumas destas pessoas – não pergunte quantas nem quem são – são para ficar, mas é preciso viver o fado e há muitas formas de o viver.

O fado é património imaterial da humanidade, mas é-o também dos portugueses?
Em relação aos portugueses acharia um bocado pretensioso e digo-lhe porquê. Falo no meu caso pessoal. Sempre que vamos cantar a terras que não sejam na orla marítima e vamos um pouco para o interior, tem de haver uma certa parcimónia. Não é efetivamente o fado a canção deles. As pessoas têm música própria. Quando estou a cantar em Trás-os-Montes, sei que as pessoas têm a sua música, é como quem os visita. Visito-os com muita cerimónia e resulta. O fado é a mais divulgada das canções portuguesas, é a mais divulgada fora do país, mas não é a única canção que Portugal tem. Temos música popular portuguesa excelente. Já estamos a ter uma pop razoável, não diria boa ainda porque não a sinto boa. Temos algumas pessoas que têm já alguma criatividade, algum rock, portanto isto não está confinado ao fado.

Consegue sentir-se em casa fora de Lisboa?
Sim. Chegar a Leiria, dizer o que me disseram, olhar para a sala – já não me lembrava da sala – sabe o que é? É uma espécie de revisitação, é muito agradável. Não sou saudosista nem passadista, mas acho que ao contrário do que se diz, vale a pena voltar ao local onde fomos felizes. As pessoas usam muito isso como contraciclo, mas eu não. Acho que vale a pena, já me tem acontecido muitas vezes.

Há algum local nesta região onde nunca tivesse atuado e gostasse de atuar?
Não me lembro. Ainda cantei no casino da Nazaré – veja só isto, sou um bocadinho antigo – na Marinha Grande. Tenho cantado por aqui à volta e sido bem tratado. Quando as pessoas me chamam eu vou.

Conseguiria cantar em Fátima, agora que se fala tanto no centenário das Aparições?
É um assunto muito delicado o que me está a colocar. Não porque eu seja agnóstico ou ateu que não sou. Eu sou crente, mas tenho em relação a Fátima um problema que não consigo ver muito bem resolvido na minha cabeça. Peço desculpa, não quero magoar ninguém com isto, mas apenas dizer que me cria desconforto que é transformar uma religião num comércio. Isso é uma coisa que me incomoda. Sublinho, digo pela segunda vez: sou crente, estou a jogar em casa, mas isso não gosto. Por isso é que eu gosto do [Papa] Francisco. O Francisco está a atacar as coisas um bocado pela raiz, com muita dificuldade porque são hábitos que estão instalados. Entendo a Igreja Católica, na qual fui educado nos meus tempos de criança e adolescente, como a igreja dos pobres. Esse é o exemplo de Jesus, donde tudo o que saia deste esquema é muito confuso. Você tocou mesmo…é como quem toca num nervo, é muito sensível, porque alguém vai ler isto e vai dizer “então ele está a atacar Fátima?” Não, o que me interessa é a essência. Ser crente é uma coisa, o comércio da crença não gosto.

Entrevista publicada na edição do REGIÃO DE LEIRIA de 21 de janeiro de 2016

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