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Antologia do Improviso: Café sem Princípio

Sandra Francisco

Sandra Francisco

Gestora de Redes sociais no Politécnico de Leiria

A vida em excesso atrapalha a ficção, digo-vos eu que preferia inventar o que não sei e ter menos para sentir. Desaguar no papel é um desafio simultaneamente belo e acutilante, por isso, vou escrever uma mensagem invisível feita de tinta-limão, rabiscada para os mais atentos – iluminados por uma imaginação invulgar, e secador em punho. Os outros, adivinhem se conseguirem. Porque isto é um manifesto público de cansaço.

Como acontece a tantos, a lufa-lufa anda a dar cabo de mim, anestesia-me os sonhos e põe-me nua de ideias, reduzindo-me o catálogo linguístico ao máximo de três ou quatro significados inúteis, demasiado irrelevantes para serem poéticos. Bem mais grave, deixei de sentir o cheiro da roupa lavada e de ouvir as Cataratas de Niágara quando puxo o autoclismo. «Afinal, onde foram parar as sílabas deste envelope vazio?». «‘Cadê’ a gaja que enfrenta a chuva dos dias e apanha ar pisando o medo de oxidar? Aquela que faz merengue sem claras, e claras sem castelo.», pergunto-me em voz baixa para não perturbar a inquisição. Cheguei a pensar em contratar um detetive privado a fim de resolver o mistério, quem sabe um simples enigma gasto de areia por escorrer ou apenas uma versão ‘light’ de mim em contrarrelógio. Desocupada de vagar, desisti da investigação.

Não nasci apta para a inércia, incomoda-me mais do que qualquer urticária. Porém, neste tempo em que tudo grita, dou por mim com vontade de ser um café sem princípio, de descartar a intensidade dos dias e de acordar oca de sede, desidratada de intenções. Quero ter o direito de ser um carioca, reles imitação de café que não faz jus ao nome. Quero ser um contrato por assinar e apanhar boleia das decisões irrisórias. Pontualmente, permitam-me deambular por aí como uma bolacha sem sal de marca branca: tonta, leve e parva.

Entre parêntesis (confirma-se que as dificuldades técnicas provocadas pelo sono, e a falta de uma secretária devidamente virada para o mar, dão nisto…). Vou ali dormir um bocado e volto no próximo mês, se o diretor quiser).

Ilustração: Jorge Morgado

(Artigo publicado na edição de 6 de fevereiro de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)

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