Joaquim Matos e Maria Alzira, em Porto de Mós, à conversa com o REGIÃO DE LEIRIA

Antes da pandemia aterrar no quotidiano, Maria Simões, 76 anos, tinha o hábito de sair do lar da Santa Casa da Misericórdia de Castanheira de Pera e dar um pequeno passeio até à sua casa, a menos de meia centena de metros de distância.

Tratava das flores e conversava com quem encontrava pelo caminho. Também não era raro que pegasse ao colo o neto que acaba de completar três meses.

Ou que Maria Alzira, 87 anos, utente do lar da Misericórdia de Porto de Mós, convivesse com a bisneta de quase dois anos. Mas tudo mudou.

“Parece que estamos em prisão domiciliária, só falta a pulseira eletrónica”, brinca Joaquim Matos que partilha o seu tablet com Maria Alzira para, por vídeochamada, do interior do lar de Porto de Mós, falarem com o REGIÃO DE LEIRIA.

O senhor Joaquim, com 89 anos e boa disposição, tem emprestado o seu tablet a vários utentes para, por videochamada, contactarem familiares, relata Dina Neves, diretora técnica. E não está só, os funcionários também facilitam as videochamadas e telefonemas, explica.

Ao senhor Joaquim fazem-lhe falta, ainda assim, as visitas presenciais da família. E também as “voltinhas”: “estava habituado a sair e tenho aqui o meu carro, ia à Batalha ou a Fátima”. Valem-lhe as novas tecnologias, que têm permitido outras voltas, virtuais, pelo globo. Da Florida a Angola, tem usado a videochamada para falar com amigos e familiares. “É muito bom”, diz o senhor Joaquim.

Já o senhor Francisco, natural de Vagos, a residir no lar de Castanheira de Pera, não tinha grande contacto com a família. Um amigo, todavia, era visita frequente. Consequência do novo coronavírus e dos cuidados a que ele obrigou, deixou de o ser. Trocam chamadas de vídeo. Não é a mesma coisa, “cara a cara era melhor”, avalia o senhor Francisco, de 80 anos de idade.

Seja em Castanheira de Pera ou em Porto de Mós, a passagem do tempo acrescenta ansiedade aos utentes das estruturas residenciais para idosos. As tecnologias revelam-se um paliativo. Precioso. A necessidade de aumentar a frequência das videochamadas é uma evidência, constata Cláudia Braga, diretora de serviços da Misericórdia de Porto de Mós.

Um desejo natural a que a equipa procura corresponder. Os utentes estão tranquilos, diz, mas “começa a haver uma certa inquietude”. Com mais chamadas “os utentes ficam mais serenos”.

O desafio é fintar o vírus, antecipando-lhe os movimentos. As visitas começaram a ter regras cada vez mais apertadas à medida que março avançava. “Começámos a ter algumas restrições que se foram intensificando”, recorda Clara Simões, diretora técnica no lar da Misericórdia de Castanheira de Pera. E a 16 de março, as visitas foram abolidas.

Em Porto de Mós, o percurso foi idêntico, uma vez que o isolamento é a mais eficaz arma contra o vírus. O recurso às tecnologias é a única brecha no cerco à doença.

“Tranquilizam muito, é uma boa ferramenta”, avalia Cláudia Braga. Acresce que os familiares vão podendo espreitar as mensagens dos utentes que, munidos de quadros, deixam recados escritos nas redes sociais das duas instituições.

São bem mais que mensagens lançadas ao mar, a partir de ilhas isoladas, uma vez que os destinatários sabem o que esperar da maré. Lá dentro, gere-se a normalidade possível e o stock emocional.

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“Bate-se, e bem, as palmas aos profissionais de saúde, mas desde bombeiros, forças de segurança e profissionais da área social, por exemplo, são muitos os que têm de lidar com uma carga emocional muito grande”, aponta Cláudia Braga.

Já Maria Alzira, socorre-se da religião para resgatar conforto nestes tempos. E, ao terminar a videochamada com o REGIÃO DE LEIRIA, desabafa: “Que nosso senhor despache isto depressa”.

(Artigo publicado na edição de 2 de abril de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)