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Bem-vindo à viagem de regresso ao futuro

A velocidade a que a mudança se instalou entre nós, dita que nos tenhamos que adaptar com arte, sabedoria e capacidade. Os desafios não são de agora, mas parecem ganhar maior peso no quotidiano de quem aprende, trabalha e procura um caminho nas competitivas e dinâmicas sociedades atuais

É já um clássico. Nasceu nos tempos de cinemas sem pipocas, cassetes de vídeo que era necessário rebobinar antes de entregar no videoclube. Michael J. Fox assumiu o papel de Marty, um jovem que em plenos anos 80 do século passado, tem a oportunidade de viajar no tempo.

No “Regresso ao Futuro”, o jovem Marty tem a oportunidade de saltar trinta anos para o passado. Conhece os pais e a sociedade do pós-segunda guerra, marcadamente industrial, com muita televisão, bastante euforia do crescimento e bem-estar, sem nenhuma internet e com a tecnologia a anos-luz da atual.

Na sequela, lançada em 1989, o jovem herói volta a saltar no tempo, desta feita para o futuro: 2015. Aí a tecnologia é mais dominante. Mas se por um lado a ficção antevê skates que levitam – mas que nós sabemos bem, caro leitor, que ainda não existem -, por outro fica longe de especular de forma certeira sobre as tecnologias de informação e comunicação que, na realidade, fazem parte dos nossos dias. Sobre pandemias e guerras, nem uma palavra, o que aliás é compreensível.

A trilogia protagonizada por Marty e o seu amigo, algo descabelado mas sempre genial, Dr. Emmett Brown, é entretenimento puro, nada dado a distopias negras. Enfim, o leitor, atento, notará que os artigos que se agarram a analogias cinematográficas, arriscam esticar-se demasiado. E este é bem capaz de ser mais um desses casos.

Vamos arrepiar caminho. Saltemos do passado desta aventura cinematográfica para o nosso presente. Em comum, parecem ter a ferramenta usada para viajar no tempo: a velocidade. Na película, ela depende da aceleração de um DeLorean DMC-12, um automóvel icónico, equipado com um dispositivo especialmente criado para contornar os limites do tempo como o conhecemos.

Quanto a nós, estamos longe de conseguir saltar no tempo, mas não nos falta já a sensação de que ele tem acelerado à velocidade de um DeLoren. Rapidamente, o futuro tem chegado de forma que ultrapassa os limites da imaginação dos guiões de Hollywood.

A mudança tem sido o cerne dos últimos anos, em vários aspetos do nosso quotidiano: da tecnologia, ao trabalho, entretenimento e à formação, por exemplo.

De tal forma que não há como regressar ao passado. Estamos obrigados a chegar ao futuro.
Socióloga, Patrícia Ervilha, aponta pistas do desafio que se nos coloca, sobretudo no mundo do trabalho e das organizações.

“Ao repensar o mercado de trabalho, as organizações, os novos conceitos, é também fundamental equacionar as profissões. E neste sentido parece-me muito urgente que se comece a discutir em conjunto, escolas, empresas, alunos, pais (toda a comunidade), quais são as linhas com que o futuro de ‘alinhavará’”.

Ora, o ponto parece mesmo ser este: a mudança contínua é algo que não podemos ultrapassar ou ignorar. Melhor será perceber como a viver de forma positiva e produtiva. E, não menos relevante, crítica.
Vejamos o mercado laboral, por exemplo.

Patrícia Ervilha adianta que atualmente, “já é claro que o setor social vai precisar de ser altamente alimentado, vai precisar de pessoas para trabalhar e não sei se esta constatação vem acompanhada de alguma ação”.

Há pistas diversas de que é necessário encarar sobre questões que se preparam para nos bater à porta: “daqui a 10 ou 15 anos não existirão professores do ensino básico e secundário em diversas áreas. Ao mesmo tempo, a tecnologia e a digitalização continuarão a aceleração impressionante que vivem e por tudo isto é necessário preparar as novas gerações para o que o futuro lhes trará”.

Tendo em conta este panorama, com o acelerar da evolução das nossas sociedades, “é assustador o fosso entre aquilo que se ensina hoje na escola (básica e secundária) e aquilo que as empresas fazem, que as organizações necessitam, que o mundo já vive”.

Entre nós, conclui, “os próximos anos só podem ser de reforma, senão, enquanto país, estamos condenados à periferia”. A missão é, pois, comum: mudar o que precisa de ser mudado, para que consigamos acompanhar esta viagem que nos leva, num salto, ao futuro.

Um mundo que muda num ápice

Tal como no DeLoren de Marty Mac Fly, a velocidade é um aspeto indisfarçável do tempo que nos coloca na autoestrada do futuro. E com ela, mudam o trabalho, as profissões e as aprendizagens. A tecnologia é o combustível.

“A sociedade atual está a mudar muito rapidamente e, com ela, alteram-se rapidamente as profissões necessárias e, principalmente, as competências necessárias para o exercício dessas profissões”, aponta Filipe Santos, docente e coordenador do mestrado em Utilização Pedagógica das TIC (tecnologias da informação e comunicação) do Politécnico de Leiria.

O desafio no universo da formação é, também, elevado, exigindo “que as escolas se adaptem e ofereçam aos estudantes ciclos de formação mais curtos, mais especializados, e “em tempo real”. Efetivamente, verificamos que termos como “reskilling” e “upskilling” são cada vez mais comuns”, reforça.

Para este especialista, há um cenário provável que pode passar por “redefinir a duração da educação formal”. Atualmente com 12 anos de ensino obrigatório, pode vir a ser repensada, apontando para modelos mais “ágeis”, de curta duração, e adequados às necessidades de trabalho e das exigências da sociedade daquele momento”.

Filipe Santos não antevê estas mudanças para o imediato, mas admite que “quando essa mudança acontecer, as tecnologias de informação e comunicação farão parte dessa realidade de ensino-aprendizagem “ágil”. E, mais uma vez, quem não tem a literacia digital necessária para se adaptar a essa realidade ficará para trás”.

Não menos relevante é o salto que o mundo atual nos permite dar no aproveitamento da elasticidade da geografia, massajada pela amplitude das tecnologias. A pandemia trouxe consigo – para além dos grandes problemas de saúde que conhecemos – o derradeiro teste de stress. E “é curioso verificar que durante a pandemia, as empresas verificaram que muitos trabalhadores podiam fazer o seu trabalho remotamente, sem necessidade de “ir ao escritório”, nota Filipe Santos.

Esta situação significa “que, hoje em dia, uma empresa portuguesa pode contratar um ‘trabalhador remoto’ que viva na Índia se sentir que este é mais competente que um trabalhador que viva em Portugal. E, claro, o inverso também é verdadeiro: um trabalhador português que esteja capacitado digitalmente pode concorrer a um mercado global de trabalho sem sair de sua casa e do seu país”.

Se dúvidas existiam, os desafios dos tempos modernos são, na verdade, os do futuro. A todos parece pedir-se que sejamos capazes de fazer saltos no apressado tempo, com uma pitada de aventureirismo de Marty McFly e, não menos relevante, a genialidade louca q.b. do Dr. Emmett Brown. De regresso ao futuro que nos espera, vamos a isso.

Quatro ideias-chave do futuro que nos bate à porta

  • Necessidade de reinventar escolas, empresas e instituições
  • Agilização da aprendizagem a médio prazo
  • Aprofundamento do papel das tecnologias na formação
  • Diluição das fronteiras geográficas no mundo do trabalho

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