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Diz-me a que distância estás, dir-te-ei como aprenderás

A questão dos nossos dias para quem está mergulhado no processo formativo, seja aluno ou docente é: a vertente mais prática do ensino terá sido prejudicada com as restrições da pandemia? Ganhará um novo impulso no período pós-pandémico?

“A vertente prática do ensino terá sido aquela que mais comprometida ficou com o ensino remoto”, aponta Filipe Santos, coordenador do mestrado em Utilização Pedagógica das TIC, ministrado no Politécnico de Leiria. E acrescenta: “Não consigo imaginar as dificuldades sentidas pelas instituições na formação remota de mecânicos, médicos, enfermeiros ou professores de natação”.

A questão é mesmo “como formar estudantes de todas as profissões que exigem acesso a certos equipamentos, ambientes ou pessoas?”, refere.

No Politécnico de Leiria, na Escola Superior de Saúde, um local que ministra conhecimentos de grande relevância social na área da saúde, o processo formativo foi, naturalmente, impactado com as restrições saídas de uma excecionalidade na área da saúde pública. E como se ultrapassa esses obstáculos?, poderemos perguntar. E perguntámos.

E Rui Pinto, diretor da escola, explicou-nos. Com a pandemia, adianta, “tivemos de lidar com esta especificidade utilizado diferentes estratégias em função de cada curso. Em alguns casos foi necessário recorrer a uma alteração da calendarização dos estágios (uma vez que numa primeira fase os hospitais, centros de saúde, clínicas e ERPI deixaram de receber os nossos alunos) o que fez com que algumas unidades curriculares fossem antecipadas, tendo os estágios sido realizados nas fases em que a situação pandémica estava mais controlada”.

Houve uma grande ginástica e capacidade de adaptação, revela. Em concreto, relativamente “às aulas de simulação e aulas laboratoriais, quando o ensino foi retomado, as mesmas foram realizadas, mas obrigando à formação de grupos de alunos por turma com número mais reduzido (para reduzir o risco de contágio)”.

A recalendarização, explica Rui Pinto, “obrigou a um esforço grande de acompanhamento dos alunos por parte dos professores quando o ensino era apenas online no sentido de se ir exemplificando (na medida do possível) as técnicas cuja prática em situações normais seriam experienciadas pelos alunos no momento”.

O diretor assegura que em termos de competências adquiridas nas aulas práticas, “as estratégias que fomos implementando permitiram que formalmente todos os conteúdos fossem lecionados e que as práticas realizadas em contexto de prestação de cuidados de saúde fossem integralmente cumpridas”.

Ainda assim admite que houve impactos, mas minorados pelo esforço de adaptação dos estudantes. Esse impacto “está a ser agora compensado (nos estágios e aulas práticas) com um esforço adicional de todos para continuarmos a garantir a qualidade amplamente reconhecida nacional e internacionalmente dos cursos da Escola de Saúde de Leiria”.

Na verdade, a experiência anterior, que vinha a ser desenvolvida antes da pandemia, também ajudou a enfrentar os novos tempos. Filipe Santos recorda que “as instituições de ensino já usam simuladores educativos há muito tempo: simuladores de equipamento fabril, simuladores de procedimentos (como uma cirurgia) entre outros que, não substituindo o ensino presencial, podem vir a ganhar mais relevância devido à pandemia”.

Na Escola Superior de Saúde de Leiria, o seu diretor não poupa os méritos à forma como a tecnologia vinha auxiliando a formação.

“Considero que as adaptações implementadas foram apenas de contexto, e que o ensino presencial não perdeu terreno. Em muitas áreas de formação, onde se inclui naturalmente a área da Saúde, não é possível pensar-se em formar profissionais sem que exista a componente presencial”, refere.

Todavia, as instituições de ensino superior “estavam a fazer um caminho (antes da pandemia) no sentido de ir adaptando as práticas à evolução tecnológica e à disponibilidade das infraestruturas: quer nas Escolas, quer por parte dos alunos e das suas famílias uma vez que por exemplo o acesso à internet não é igual para todos – eu diria que mesmo depois da experiência pandémica, continua ainda a não ser igual”, refere.

Ainda assim, explica, “estes modelos continuam a ser presenciais”. Aliás, do ponto de vista legal “um curso presencial pode ter até 25% de aulas lecionadas recorrendo a meios telemáticos com metodologias síncrona ou assíncrona”, enfatiza.

O fim da ditadura geográfica?

“Acredito que, no futuro, as escolas estejam mais atentas à “ditadura da geografia”, garantindo ao máximo que estudantes possam estudar a partir do local onde estão e sem necessidade de ir à escola”, antecipa Filipe Santos, olhando para um caminho cada vez mais nítido que se vislumbra.

“Talvez o futuro mais próximo nos reserve um cenário híbrido: um ensino com sessões práticas presenciais (para certas competências que não podem ser aprendidas de outra forma) e com muitas sessões remotas, com recurso a simuladores online ou simuladores físicos de baixo custo, a serem utilizados em casa, para consolidação das aprendizagens práticas”, completa.

Na área da saúde, Rui Pinto tem perceção alinhada: o ensino à distância, entende, “tem um potencial enorme se pensarmos na necessidade que temos enquanto país de proporcionar formação contínua de profissionais, na versatilidade do modelo que permite que se adapte o horário às restantes funções dos estudantes e por esta via também contribuir para aumentar os números de diplomados na formação de adultos”.

O diretor da ESS de Leiria vê aqui também uma vertente de “oportunidade e ao mesmo tempo responsabilidade para com a Lusofonia”, atendendo à relevância da “formação em língua portuguesa neste regime” de forma a contribuir para “a coesão e desenvolvimento de uma parte muito significativa do mundo”.

Ainda assim, Rui Pinto deixa claro que o ensino à distância é uma alternativa e não uma substituição do ensino presencial”. Aliás, sublinha, “o ensino presencial não perdeu terreno. Trata-se na verdade de uma metodologia diferente”. s

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