Assinar

Mundo do trabalho pós-pandémico? “A regra é a mudança”

A partir de casa, muitos passaram a trabalhar, estudar, relacionar-se socialmente e a refazer o seu quotidiano

Há uma ideia forte que se tem acumulado aos longo dos últimos anos de que o mundo do trabalho está em acelerada transformação. Os especialistas avisaram-no, nós sentimo-lo e o mundo tem-se encarregado de o demonstrar.

Se essa dinâmica era já incontornável, a pandemia que alterou o modo de viver e conviver de largos milhões de pessoas, acelerou ainda mais todo o processo. De um momento para o outro, economias inteiras tiveram de se adaptar ao trabalho à distância e à consequente nova centralidade do lar. A partir de casa, muitos passaram a trabalhar, estudar, relacionar-se socialmente e a refazer o seu quotidiano.

Será de esperar que a pandemia e a consequente aceleração do processo de mudança e flexibilização das geografias de trabalho, tenham consequência no universo laboral a breve ou médio prazo?

Sobre esta e outras questões, ouvimos Patrícia Ervilha e Artur Ferraz. Consultores em gestão de pessoas, é possível ouvi-los no podcast do jornal Região de Leiria, “Rádio Diz-Que-Disse”, em conversas com periodicidade semanal, conduzidas pela jornalista Patrícia Duarte. O podcast versa o universo das organizações. É seguro dizer-se que o mundo do trabalho é o foco da sua atenção e ele é também um dos principais focos de quem procura caminhos profissionais ou formativos.

Feitas as apresentações, vamos às questões. Onde é que íamos? Ah, pois: afinal será que a pandemia mudou muito o mundo do trabalho?

Patrícia Ervilha, socióloga, consultora de Formação e Desenvolvimento de Pessoas considera que “as consequências da pandemia na flexibilização do trabalho já são visíveis neste momento”. “A meu ver”, adianta, “algumas dessas consequências, como a flexibilização do local de trabalho, a flexibilização dos horários, a tomada de consciência da urgência da conciliação das diferentes facetas da vida, entre tantas outras, já não volta atrás. Naturalmente, em muitos casos o trabalho permanecerá igual, mas a regra é a mudança”. Patrícia Ervilha completa a ideia, lembrando uma variável importante para perceber esta mudança: é que ela é “fundada no salto tecnológico. O ponto fulcral desta fase do trabalho e do mercado é a digitalização”.

“Estamos a assistir a uma mudança drástica daquilo a que chamamos de trabalho. Esta mudança já estava a acontecer antes da pandemia e, mais recentemente, com a invasão da Ucrânia”, reforça, por sua vez, Artur Ferraz. O partner e consultor da International Business Consulting (IBC), também vê na tecnologia um facto central nesta alteração drástica.

“O mundo do trabalho está a mudar porque a tecnologia, que é o verdadeiro motor, dessa mudança, veio transformar a forma como as organizações desenvolvem os seus negócios, desta forma o trabalho, as ações que as pessoas fazem para colocar em ação esse negócio, é diferente agora e a velocidade da mudança não pára de aumentar”, sublinha.

As empresas que estão presentes no mercado global já o perceberam, acrescenta Artur Ferraz. Consequentemente, “estão a ajustar as formas tradicionais de desenvolver o seu negócio. Não podemos resolver as novas questões relacionadas com o trabalho usando as antigas formas de resolução de problemas”. Se para quem já está integrado nas organizações e nas empresas, toda esta incrível e acelerada evolução é inevitavelmente uma realidade do quotidiano, para quem procura traçar um percurso profissional, tem de ser um facto de peso a ter em conta.

É que, explica Artur Ferraz, “hoje é necessário preparar as estruturas das organizações, profissionalizar os seus serviços, para perceberem as subtis mudanças que estão a acontecer e preparar o caminho da mudança continua”.

Nesta nova era do trabalho, reforça, “as competências estão em constante alteração e as pessoas não se podem acomodar às suas antigas experiências. O verdadeiro tema que devemos trabalhar é a urgência da estimulação dos decisores para essa mudança”.

Ir para fora, cá dentro


O slogan é usado para promover o turismo interno, mas ameaça fazer sentido para quem emigra sem sair do país. Pode parecer estranho, mas com as alterações acarretadas pela pandemia, o termo “teletrabalho” ganhou um impulso inédito.

Não era novidade, mas a velocidade da sua implementação e a abrangência da sua disseminação, tornaram-no peça chave para decifrar as linhas futuras de evolução das carreiras.

A título de exemplo, será que continuamos a ter de sair do país para conseguir trabalho no estrangeiro? Estará na calha a emigração, permitindo a presença física do trabalhador no país natal, mas a exportação do seu trabalho para entidades estrangeiras?

“É uma possibilidade, sem dúvida”, concorda Patrícia Ervilha. “Aquilo que se esperava, ainda antes da pandemia, era que o mercado de trabalho nos EUA se transformasse em prestações de serviços, para mais de 50% da força laboral. Se há uns anos pareceria exagerado, hoje parece-me perfeitamente exequível”, afirma.

Acresce que este novo conceito pode responder a expectativas da nova força laboral: “temos que pensar que quem entra no mercado hoje não tem o mesmo pensamento de quem está no mercado e o próprio conceito de trabalho também evoluiu”, acrescenta. Na prática, com o mercado de trabalho potencial a alargar-se e a flexibilidade acrescida no antes rígido mundo dos horários a acentuar-se, há novas possibilidades mais atraentes para quem busca um lugar no mercado de trabalho.

“Parece-me viável e atrativa para uma parte da força laboral essa real globalização do mercado e perda de significado da sincronia do tempo”, aponta a consultora.

À espera da telementalidade

Artur Ferraz aponta um desafio nesta nova realidade: a mentalidade. Afinal, “o teletrabalho é uma ferramenta que, em muitas empresas, era já uma realidade”. A principal questão, refere, contudo, “é a mentalidade”. É que “liderar à distância impõe a necessidade da confiança e esse fator necessita de ser trabalhado nas organizações”.

O teletrabalho “será comum” aponta o consultor. O trabalho remoto, explica, “vem colocar uma enorme pressão nas empresas nacionais pois hoje o trabalho é supranacional e em outras geografias existem modelos organizacionais estruturados para aproveitar as mais-valias de forma conceptual”. O desafio está lançado.

Apoie o REGIÃO DE LEIRIA

Se chegou até aqui é porque este é um texto que lhe interessa. Por detrás dele há uma equipa e um conjunto de recursos que custam dinheiro e que, para continuarem a existir, precisam da sua ajuda. Gostávamos de lhe explicar como.