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Quanto tempo de trabalho tem o futuro de quem trabalha?

Com a semana de cinco dias de trabalho consolidada e os momentos pessoais e de lazer definidos no calendário e nas práticas da sociedade, haverá espaço para a mudança que a flexibilidade tem vindo a sugerir?

A evolução dos tempos de trabalho não é nova. Do servilismo medieval, às infindáveis jornadas de trabalho na revolução industrial, a mudança tem sido constante. De tal forma que o aumento dos tempos de lazer, a criação de sectores inteiramente dedicados a estes momentos de valorização pessoal, são esferas com peso crescente nas economias desenvolvidas.

Há um século, em boa parte dos países, a semana de trabalho era de seis dias. Atualmente, com a semana de cinco dias de trabalho consolidada e os momentos pessoais e de lazer definidos no calendário e nas práticas da sociedade, haverá espaço para a mudança que a flexibilidade tem vindo a sugerir?

Na prática, quem se prepara para chegar ao universo do trabalho, estará vinculado à semana de cinco dias? Os estudos começam a mostrar opções diversas. Há quem defenda mesmo que “a sexta-feira é o novo sábado”.

Os argumentos a favor e contra multiplicam-se. O português Pedro Gomes, economista e professor na Universidade de Londres, juntou recentemente argumentos a favor desta opção: a semana de quatro dias de trabalho.

“O trabalho irá evoluir no mesmo sentido que quisermos criar e desenvolver uma sociedade livre e orientada para o bem-estar”

Artur Ferraz

Transcritos em livro lançado este ano, os argumentos reportam-se ao seu trabalho académico que aponta para ganhos individuais e também das organizações, em consequência de uma nova organização do trabalho que, argumenta, estimularia a procura, a produtividade, a inovação e os salários.

Do ponto inverso, há também quem complete que menos horas de trabalho implicam, necessariamente, acréscimos no preço do trabalho e custos saídos do desajuste com a restante economia.

O certo é que o tema é já comum na agenda pública de vários países da Europa. E chegou a ser assunto de programas eleitorais nas últimas eleições legislativas. Em suma, será que a flexibilidade dos tempos de trabalho poderá alimentar a ideia de uma “semana” de trabalho de quatro dias e uma redefinição da relação entre trabalho e lazer?

Para a consultora Patrícia Ervilha, “a ideia da semana de quatro dias será sobretudo a consequência de uma necessidade do mercado no sentido em que, em 10 ou 20 anos, não teremos trabalho suficiente para semanas de 40 horas para toda a gente”.

Assim, resolver essa equação pode passar por esta solução: “uma das saídas para que o emprego se mantenha uma realidade para quem o quiser, será a diminuição da carga horária de cada um. Esta necessidade, aliada à flexibilização, sim, será uma relação perfeita para a referida redefinição da relação trabalho/lazer”.

Se o futuro incluir essa tendência, ela poderá não ser uniforme para todos. A evolução dos tempos de trabalho, considera Artur Ferraz, “irá evoluir de forma assimétrica, conforme os sectores se forem desenvolvendo”. Em Portugal, aponta o consultor, “continuamos à espera de soluções legais para organizar o trabalho, esse tempo acabou e não vai voltar”.

“Em 10 ou 20 anos, não teremos trabalho suficiente para semanas de 40 horas para toda a gente”

Patrícia Ervilha

A incerteza é, ainda assim, grande. Há uma componente de vontade coletiva nesta como noutras questões: a forma como trabalhamos no futuro será o que entendermos construir enquanto sociedade. O trabalho e a forma como o desenvolvemos”, lembra Artur Ferraz, “irá evoluir no mesmo sentido que quisermos criar e desenvolver uma sociedade livre e orientada para o bem-estar da população”.

Há questões civilizacionais que se acrescentam a este debate. Artur Ferraz torna-as evidentes: “torna-se claro que iremos entrar em choque com o conjunto de países que continua a considerar as pessoas, não como seres humanos, mas como uma extensão das suas pretensões totalitaristas”.

Os mais recentes acontecimentos, confessa, contribuem para esta visão. É que “esta última frase não estaria aqui escrita antes de 24 fevereiro de 2022, o dia em que o mundo se dividiu e o verniz estalou em muitas geografias do nosso planeta”, admite.

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