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Caminhando: or piango or canto… – Passo a passo… a metamorfose afetiva dos seres e lugares

Se há algo a que nunca os Poetas se vergaram foi à inexorabilidade do destino.

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Cristina Nobre, professora no Instituto Politécnico de Leiria cristina.a.nobre@gmail.com

Nem sempre a vida corre: solavancos, quedas, tropeções, doenças, desgostos, e a corrida parece estagnar… Mas a lentidão é como o silêncio, uma forma de comunicar algo e de o partilhar: é assim que, ao longo de quase 30 anos, tenho encontrado o meu amigo, colega e professor, Orlando Caetano, agora reformado e com alguns problemas de saúde que nunca o levaram ao desânimo. E tem sido a poesia uma das suas profilaxias mais produtivas, porque lhe permite continuar a afirmar-se conscientemente vivo, emotivo, guardando memórias e (re)criando os dias – o futuro a nascer de um passado preenchido com afetos – os seres e os lugares gravados na pele de cada presente, metamorfoseados em registo escrito que fica quando o corpo se vai…

Com o pseudónimo de Noel Ferreira, acompanhei-o no primeiro livro de poesia, “Descontinuidades” (1991) e no segundo, “Além do Azul” (1994). Em 1999, veio a música com “Vibrações da alma”; em 2004, o regresso à poesia com “Nova Madrugada”, e “(E)terno Abraço” (2011) – que tivemos a sorte de ter na ESECS, com uma simpática visita do poeta aos nossos estudantes chineses do curso de Tradução e Interpretação. Cinco livros e o percurso do poeta Noel Ferreira apresenta um estilo próprio, agora enriquecido com Passo a Passo, com o Pai do autor como motivo central, falecido em 2009, e a quem o livro é dedicado.

Foi com renovado prazer que fui assistindo ao parto de mais um ‘filho’. Li, passo a passo, pausada e serenamente os 43 poemas que me ia enviando para a caixa de mail, quando que o poeta Noel lhe sussurrava que tinham nascido.

Se há algo a que nunca os Poetas se vergaram foi à inexorabilidade do destino. Caminhando, voltando ao paraíso da infância, protegido pelas asas de anjos femininos (figura maternal | amante | companheira | o Yin e o Yang em sílabas soletrados), encantado com as paisagens e as memórias guardadas (figura paterna), refletindo sobre as antinomias paradoxais de quase todo o agressivo e comezinho real, o Poeta encontra a paz e a harmonia possível no soletrar mágico das poéticas palavras, cinzeladas e lapidadas nas provas gráficas até à exaustão.

Então o cavalo descansa frente ao mar: horizonte de água fértil. A água que abala e ameniza, as dores e as emoções sofridas condensadas em palavras serenas, elas mesmas e já outras, prontas para transportar o leitor à ilha ou continente, sabendo que o horizonte é o mesmo e diferente e que há que navegá-lo. Passo a passo ou remo a remo?

Eu sei que a navegação do poeta Noel ainda está longe do fim: porém não sei explicar porquê. E importa? Basta atrevermo-nos a abrir as janelas de passo a passo e deixar entrar o núcleo, âmago humano: sem poesia a música não se ouviria. Acredito que o Orlando Caetano escreverá um dia a partitura para estes 43 poemas. Fico à espera.

(texto publicado na edição de 8 de maio de 2014)