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Crónicas do Quinto Império: As certezas da História

Na mesma semana em que D. Manuel I assistia a festas memoráveis no Terreiro, morria-se de fome em Santarém, por falta de cereal.

Joaquim Ruivo, presidente do CEPAE jruivo2@sapo.pt

Um relato de quinhentos conta-nos que na mesma semana em que D. Manuel I assistia a festas memoráveis no Terreiro, morria-se de fome em Santarém, por falta de cereal. Trinta anos após a chegada à Índia já o país falia, mas ainda na ilusão da riqueza, com D. João III assoberbado pelas despesas, pela corrupção, pela administração ineficaz, pelo clientelismo.

Ora, com frequência a História me dá esta certeza: a de que os portugueses nunca aprendem com a História! Parecemos estar fadados a alternar ciclicamente entre gasto excessivo e poupança forçada. Recordemos o mais próximo de nós:

– Quando nos finais do séc. XVII o 3º Conde de Ericeira enceta um política mercantilista de desenvolvimento das artes manufactureiras, o ouro fácil do Brasil que começa a chegar às toneladas fez-nos crer, novamente, que podíamos gastar sem produzir. D. João V esbanjará, numa prodigalidade sem limites, riquezas imensas.

– D. José, logo depois, encontra a nação pouco produtiva e endividada. Salva-o o marquês (de Pombal), com um projecto global de modernização do país. Sol de pouca dura: no início do séc. XIX a Corte fugirá para o Brasil e três invasões deixarão Portugal em ruínas.

– A época liberal foi o que se viu: os novos governantes liberais repartiram com “igualdade” entre si o melhor que puderam do saque à Igreja e ao Estado absolutista, banqueteando-se “fraternalmente” com acessos a cargos públicos e aumento de riqueza, num novo clientelismo desbragado.

– No final do séc. XIX Portugal está de novo na bancarrota, concluindo-se que o liberalismo regenerador pedira mais ao estrangeiro do que aquilo que a nação pudera produzir e pagar.

– Após 16 anos e 45 governos republicanos postos e depostos por deputados solipsistas, Salazar surgirá como um “pai”, poupado e avarento. Também os seus “filhos” esperarão ansiosamente pelo seu fim para poderem gastar em liberdade o que sempre lhes fora proibido.

– Perdida a África, ficou a Europa. A CEE foi novo “Eldorado”. Foram milhões evaporados em formação, milhões para pescas e agricultura (pagando para cultivar e pagando para deixar estragar), para infraestruturas (tantas que nem se conseguem manter!)

Nos anos quarenta do séc. XX acabámos de pagar à Inglaterra empréstimos contraídos – imaginem – no tempo… de Dª Maria II. Eis outra das certezas que a História nos dá de bandeja: alguém pagará as nossas dívidas. Não sabemos é quando.

(texto publicado na edição em papel de 25 de Novembro de 2011)