Em pouco menos de um fósforo, o rastilho do coronavírus incendiou o mundo, num pânico que faz lembrar as pestes que noutros séculos reduziram a lágrimas países e continentes.

Aquilo que apenas existia nos compêndios da história bateu à porta dos nossos dias. Estamos tão à frente desses anos distantes e tão atrás na sustentabilidade da casa mãe que habitamos.

Num tempo em que a humanidade se olha ao espelho e admira os avanços que faz em todas as áreas, da conquista do espaço às máquinas que substituem o homem, das armas nucleares aos transplantes de órgãos, eis que a aritmética do crescimento permanente e da globalização é devorada por um vírus que ataca como um terrorista invisível, silencioso e universal.

Estamos reduzidos a um pormenor maior do que todos os avanços, esmagados pelos caprichos da natureza e enigmas iguais aos de outros séculos. Crescemos tanto, mas avançámos tão pouco. Na última terça-feira, a pandemia era real, mas ainda não tinha sido oficialmente decretada.

Quarentena passou a ser a palavra mágica, o passaporte para a quietude necessária à cura ou à confirmação do estado saudável.

Como um ato solitário que foge da multidão, a quarentena, que afinal nem chega a ser uma quinzena, é sempre muito tempo, muitas horas afastadas da globalização. O suficiente para o mundo respirar num céu mais azul, com menos poluição.

As quarentenas, vividas ou temidas, são uma ironia, um silêncio que grita e questiona o modelo de civilização, o consumo desenfreado, as viagens, cada vez mais viagens, as feiras, o turismo, e os likes, cada vez mais likes, dos locais por onde passamos, mas onde nunca estamos. De quarentena, já não somos consumidores vorazes, assistimos às fábricas paradas e às cidades sem gente. Faltam peças, os produtos demoram mais tempo a chegar.

Afinal, o último smartphone não é assim tão importante. Depois da peste, vamos mudar de vida ou voltamos a fazer da vida uma peste?

(Artigo publicado na edição de 12 de março de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)