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José Manuel Silva

Professor/gestor do ensino superior | jmsilva.leiria@gmail.com

Passageiro do tempo: Há mais vida para além da Covid

Nem as lideranças mundiais, nem as organizações científicas e de saúde, estavam preparadas.

A grande lição a tirar desta pandemia é que nem as lideranças mundiais, nem as organizações científicas e de saúde, estavam preparadas. Daí as contradições, as mensagens dissonantes, os avanços e recuos que o processo tem sofrido e o estado de aparente impasse a que se chegou com a adoção de medidas cuja única justificação é fazer-se alguma coisa para que se não possa dizer que não se faz nada.

Em Portugal, a triste realidade é que tem morrido muito mais gente de outras patologias para além da Covid, o número de óbitos tem sido muito superior ao dos anos anteriores, o número de consultas, cirurgias e tratamentos não realizados atinge cifras inaceitáveis e a Covid transformou-se no prato se substância das notícias e preocupações políticas como se nada de mais ocorresse no campo da saúde e dos cuidados dos portugueses, para não falar da economia; quem cuida dela?

A especulação tomou conta do campo noticioso e as notícias sobre surtos, sobretudo em lares, são matraqueadas até à náusea como se o vómito Big Brother tivesse tomado conta do espaço informativo nacional. O Ministério da Saúde deu um inestimável contributo a esta paranoia noticiosa ao prestar-se a dar explicações e números sobre minudências sem qualquer interesse que não fosse alimentar a especulação.

Entretanto, não foi delineada nenhuma estratégia para que a pandemia fosse encarada como do foro do Sistema Nacional de Saúde e a ideologia ditou as suas regras para que o SNS estatal fizesse das fraquezas forças. “É a política, estúpido!”, como poderia dizer Clinton.

Finalmente, ficou patente a falta de organização da máquina da saúde e bem podem cantar-se loas aos seus profissionais, não basta, é imperativo reorganizar os serviços, o que não se faz com milhões gastos em desespero; depois se verá se apenas se paga a fatura ou se aprende a lição e se muda.

(Artigo publicado na edição de 29 de outubro de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)