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O meu diário: Primos

Helena Vasconcelos

Helena Vasconcelos

Médica

Este fim de semana tivemos um encontro de primos. Fomos almoçar juntos ao Gerês. Alguns já não via há 20 anos. O encontro começou no funeral da nossa tia solteira e a coisa correu mal. Porque às exéquias da nossa tia velhota, sobrepuseram-se as histórias que todos tínhamos para contar e a coisa foi mais alegre do que é suposto ser um funeral. Relembrámos quando ela fazia de propósito para perder a camioneta para irmos a pé ao mercado e assim poupar o dinheiro do transporte. Quando nos obrigava (às raparigas) a fazer serão noite fora para a ajudar a limpar a casa porque era Páscoa e no dia seguinte vinha o compasso com o Sr. Prior. Se pudesse escolher, um dia gostava que o meu funeral fosse assim, com gente mais nova a gargalhar e contar episódios da minha vida. As pessoas lá da aldeia não nos chamaram atenção, mas adivinhávamos na sua cara um rasgo de crítica pela falta de decoro e compostura. Em homenagem à minha tia fomos almoçar no sábado e levámos os filhos (os que quiseram) e alguns, os netos. Foi verdadeiramente emocionante e voltámos todos de coração cheio. O apelo do sangue é uma coisa extraordinária. Quando nos sentamos em volta da televisão a ver fotografias dos bisavós, dos nossos avós e dos nossos pais quando eram pequenos foi uma partilha fantástica. Descobrimos que o tio Neca era loiro quase platinado e que a tia-bisavó Luíza tinha uma espécie de buço que conseguia transparecer mesmo nas fotos de 1922. O bisavô Justino que gostava de levar os netos para a praia, um feito à época , alugava uns fatos de banho ao banheiro e pagava para lhes dar banho no mar da Póvoa (que é gelado) às oito da manhã. Tive uma vontade de tirar o bisavô do retrato e de lhe apresentar a nova geração, de lhe dar um abraço e lhe garantir que valeu a pena a sua vida pelo sentido que deu às nossas. E ouvimos histórias de pistolas e assaltos no caminho e de fome e de guerra e de volfrâmio e de nascentes de água. Tiraram-me parecenças, a mim e ao Daniel que é filho de uma prima, do tio de Freixo que era um bem disposto e algo comilão. Eu e o Daniel ficamos assim unidos pelos genes do tio de Freixo, que já tinha morrido quando eu nasci, mas que teima continuar vivo nos meus genes e na minha cabeça e agora mais um largos anos na cabeça do jovem Daniel.

Que bom é ter uma mesa com vitela assada e cheia de primos ao redor.

(Artigo publicado na edição de 20 de junho de 2019)

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