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Tempo incerto: Uma dívida de gratidão

José Vitorino Guerra

José Vitorino Guerra

O PS tem, certamente, uma natural dívida de gratidão para com o independente Raul Castro. Este deu-lhe vitórias saborosas e permitiu ao partido sentir as alegrias do poder autárquico em Leiria. A prática política mostrou que o PS tinha pouco para oferecer ao concelho e, portanto, o que se fez resulta, sobretudo, da iniciativa de Raul Castro. Castro tornou-se imprescindível para o PS, permitiu-lhe alargar a sua base social de apoio e é a principal personalidade que o partido tem para apresentar nas próximas eleições legislativas.

A posse do poder autárquico levou à municipalização do PS e a uma crescente quebra ideológica, em detrimento de um pragmatismo que visa a mera manutenção do poder. Assim, não é de estranhar que a maioria dos presidentes de Junta de Freguesia não sejam militantes do partido.

Castro decidiu suspender o mandato, desvincular-se do compromisso com os munícipes e candidatar-se à Assembleia da República. Um percurso seguido por outros autarcas à medida que o poder dentro dos partidos se centra na capacidade de influência dos presidentes de câmara. Ao abandonar o cargo, deixa em aberto diversos projectos e obras já lançadas para o seu sucessor inaugurar.

Em termos de poder político, com o virar da página e o passar do tempo, corre o risco de ficar fragilizado, tanto mais que o PS é capaz de não resistir à tentação de mostrar que aquilo que foi feito se deve às suas orientações políticas e não à simples acção de Raul Castro. Em política, a gratidão costuma ser uma terra estranha!

Castro deixa como putativo herdeiro Gonçalo Lopes, mas a gestão da herança pode não se revelar fácil.

Gonçalo Lopes precisa de dar a conhecer que tem mais para oferecer ao concelho do que entretenimento e festas. A gestão da autarquia é muito mais complexa, permanecendo em aberto diferentes problemas estruturais que urge resolver.

Tem de resistir à tentação fácil de dar mais do mesmo. Necessita de consolidar a heterogénea base social de apoio em que assentava o poder de Raul Castro e isso exige engenho, arte e um outro modo de agir, mais institucional.

Neste momento, graças a Raul Castro, tem uma passadeira vermelha debaixo dos pés e tempo. Vamos a ver se o sabe gerir!

Escrito de acordo com a antiga ortografia

(Artigo publicado na edição de 29 de agosto de 2019)

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