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Tempo incerto: Faz de conta!

José Vitorino Guerra

José Vitorino Guerra

Os governantes possuem o hábito de empurrar os problemas com a barriga e de aparentar a sua resolução, através de medidas administrativas e do lançamento de dinheiro sobre a questão. Naturalmente, podia-se procurar melhorar o funcionamento das instituições, produzir políticas de qualidade e introduzir modelos de gestão mais rigorosos e eficazes. Todavia, para isso, era preciso olhar de frente os problemas e possuir vontade de os resolver, o que iria bulir com os interesses corporativos.

A educação é uma das áreas mais dadas a este tipo de problemática e medidas administrativas não têm faltado, bem como uma crescente apetência por mais dinheiro.

Agora, o governo pretende erradicar as retenções e a medida não deixará de vir acompanhada por avançadas teorias pedagógicas e a mais prosaica constatação de que estamos mal nas estatísticas europeias e de que as reprovações ficam caras. Portanto, é preciso fazer de conta que o elevador social que a escola podia ser para os sectores mais pobres e desfavorecidos vai passar a funcionar melhor e de forma mais equitativa.

A retenção não tem efeito benéfico, nem melhora as insuficiências adquiridas num processo de aprendizagem pouco exigente e infantilizador. A retenção atinge, sobretudo, os alunos portadores de escassas expectativas em relação à escola e à aprendizagem, provenientes de meios com baixa auto-estima e reduzido nível sócio-cultural.

É o sinal da doença que atinge a escola de massas e que poucos acreditam que seja compatível com a qualidade no ensino. Nesta perspectiva, atalhar-se a retenção é apenas um corolário lógico!

A escola pública está esclerosada nas práticas e nos discursos. Além de um ou outro modismo e do uso das novas tecnologias, as coisas vêm-se degradando há décadas. Currículos demasiado rígidos, programas extensos e desfasados da realidade, lideranças frágeis, metodologias inadequadas, crescentes trapalhadas pedagógicas, burocráticas e administrativas, servidas por um corpo docente desencantado e descrente, em que muitos adoptaram como regra de sobrevivência o faz de conta inerente às orientações da tutela. Na escola do entretenimento, a maneira mais fácil de aparentar a resolução dos problemas é baixar ainda mais a bitola e burocraticamente deslumbrar-se com as futuras estatísticas.

(Escrito de acordo com a antiga ortografia)

(Artigo publicado na edição de 21 de novembro de 2019 do REGIÃO DE LEIRIA)

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