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Há anos que o problema começou nas escolas. Quase ninguém ligou. A falta de disciplina, o desrespeito, os desvalores instituídos como cartilha transformaram muitas escolas num campo de confronto permanente e os seus professores em sobreviventes do quotidiano. O que se tem passado com as agressões a médicos é a repetição do mesmo fenómeno e se não se atuar com rapidez e eficácia acontecerá o mesmo que nas escolas, o problema tornar-se-á endémico.

A raiz da situação é conhecida, erosão dos valores. Se em casa não respeito os pais, por que razão hei de respeitar os professores, os médicos e todos os que me aparecem pela frente limitando a minha vontade de fazer o que me apetece em cada momento? É verdade que em tempos mais recuados a educação familiar era bem menos sofisticada do que é hoje, mas a maior parte dos jovens não punham os pés nas escolas e a maioria das famílias não frequentavam consultórios médicos nem hospitais.

Acresce que os médicos eram um grupo social à parte, com poderes intocados e a quem ninguém se atrevia a desrespeitar. Hoje são funcionários públicos do SNS, iguais a todos os outros em direitos e deveres, com obrigações de atendimento dos doentes que não se esgotam nas estritamente clínicas.

A massificação do acesso a serviços públicos de educação e saúde, uma das grandes conquistas da humanidade moderna, não pode ser desligada do caldo cultural enriquecedor que a melhoria das condições de existência também pressupõe e isto tem falhado em Portugal, particularmente porque se foi instalando a ideia nefasta de que a democracia não implica respeito pelos outros e pelas suas funções.

O problema não se resolve com “botões de pânico” e respostas musculadas, mas com mais sensibilização para valores básicos convivenciais, direitos e deveres mútuos, mais organização dos serviços e mais atenção ao cliente.

(Artigo publicado na edição de 9 de janeiro de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)