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Sociedade

O rebanho da Serra d’Aire está a crescer

A completar um ano, o projeto de conservação de habitats e prevenção de fogos na Serra d’Aire já dá alguns frutos. A iniciativa trouxe aos montes um popular rebanho de cabras.

Foi apelidado de “pastor” por ter mantido ao longo da vida a atividade da pastorícia, mesmo quando não fazia disso o seu ofício quotidiano.

O projeto “Habitats Conservation” é composto por 400 animais (fotografia: Joaquim Dâmaso)

É Armindo Domingos, 51 anos, quem acompanha diariamente o rebanho de cabras da Junta de Freguesia de Fátima, que tem por missão defender a serra dos incêndios e preservar assim espécies de plantas em risco de extinção.

Ao todo são cerca de 200 cabeças de gado que, em conjunto com o rebanho do Pedrógão, concelho de Torres Novas, compõem os 400 animais do projeto “Habitats Conservation”, uma iniciativa da Quercus com o apoio do programa Life+ da União Europeia.

Há cerca de um ano, Armindo Domingos recebeu a proposta para regressar ao pastoreio de cabras pelos montes da Serra d’Aire. Desde então já teve dois colegas, mas ambos desistiram de um trabalho duro e exigente, que obriga a percorrer cerca de 10 quilómetros de serra todos os dias.

As cabras, trata-as pelos nomes, “Rita”, “Cachopita”, exibindo um reportório de assobios que fazem deste pastor um mestre no ofício.

O dia começa pelas 5h45, com a ordenha dos animais. Cerca das 9 horas segue para a serra, onde permanece com o rebanho até às 19 horas.

Armindo Domingos

Perdido entre os montes, raramente vê alguém. “Isto é complicado”, reflete, “tem que se dar muito apoio, senão os cabritos morrem”. “Agora temos condições boas, há uma sala de ordenha que é um espetáculo”.

Foram os licenciamentos dos estábulos que mais atrasaram a implementação do projeto, refere a este propósito José Paulo Martins, da Quercus. Da UE veio 75% dos cerca de 300 mil euros necessários ao desenvolvimento da iniciativa, que tem também uma vertente educativa, com as escolas de 1º e 2º ciclos da região.

Antes das cabras e cabritos, o controlo dos matos foi feito de forma mecânica. A Quercus recuperou também um edifício para ser utilizado como secador de plantas (medicinais, aromáticas e condimentares), no Bairro, e espera agora criar uma bolsa de utilizadores.

Um projeto de adaptação difícil

“Isto para se manter tem de ser rentável”, explica José Paulo Martins, da Quercus, ao referir a ambição de que o rebanho permaneça na serra
muito além dos três anos de vigência do programa Life +. Para isso é necessário que se mantenha a atividade económica ligada aos animais, com produção de leite ou queijo.

“Queremos certificar esses produtos, criar a marca da Serra”. Ideias que estão a ser analisadas e que têm contado com o apoio das juntas de freguesia.

Em Fátima, o presidente Natálio Reis, lamenta um primeiro ano de difícil adaptação, no qual morreram 120 animais. Entretanto nasceram novas crias e o rebanho encontra-se estabilizado e pronto a crescer.

“Não desistimos, mesmo com os prejuízos”. Ao leite (que já está a ser vendido a um fabricante de queijos de Santarém), acresce a vontade de certificar o cabrito da Serra d’Aire. Para tal é necessário chegar às mil cabeças.

(Reportagem publicada na edição de 18 de abril de 2013)

Cláudia Gameiro
claudia.gameiro@regiaodeleiria.pt

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