Quando perguntamos às crianças o que preferem fazer – entre ver televisão ou brincar na rua -, a resposta é invariável. É de brincar que elas gostam mais.

Respondem sem hesitações e não escondem que gostam de brincar com os melhores amigos na escola, e com os pais e os irmãos em casa, entre outros familiares.

Um inquérito “rigoroso” feito a três dezenas de crianças do Centro Escolar da Barreira (CEB), em Leiria, permite ainda concluir que jogar à apanhada, às escondidas, à macaca e futebol, e saltar à corda, estão no topo das preferências dos meninos e das meninas.

O que mais surpreendeu foi ouvi-los dizer que não lhes falta tempo para brincar, e que o tempo que têm para jogos e brincadeiras “é suficiente”, tanto na escola como em casa.

Não falámos com os pais mas Isabel Silva, coordenadora do CEB, que abriu portas há dois anos e funciona hoje com oito turmas do 1º ciclo, tem uma explicação: além dos dois intervalos de meia hora para recreio, os conteúdos curriculares são tanto quanto possível trabalhados de forma lúdica.

“Há conteúdos extremamente difíceis e abstratos que importa que os alunos não memorizem mas aprendam, como por exemplo os solos permeáveis e impermeáveis”. Aproveitando o calor da semana passada, os professores levaram os alunos para a rua para trabalhar aqueles conceitos, regando.

“Andaram numa diversão brutal porque se molharam todos mas nunca mais se vão esquecer do que aprenderam”, referiu a docente, acrescentando que a escola tem um espaço de recreio imenso “em dimensão e em variedade”, e que as crianças aproveitam o parque, o jardim e os campos de futebol e de jogos “de uma ponta à outra”.

Na escola da Barreira, os alunos “brincam muito” e voltaram a saltar à corda e jogar ao pião, entre outras brincadeiras. O resultado não podia ser mais positivo, segundo Isabel Silva, que registou um “decréscimo acentuado de problemas de comportamento” desde a entrada em funcionamento do CEB.

Para que as crianças possam aproveitar de forma plena o recreio, os professores concedem uns minutos para que os alunos possam lanchar ainda na sala de aulas e a medida tem-se afigurado vantajosa. Quando, às 11 horas, saem para a rua, “não arrastam o lanche”. “É a descompressão total, correm e pulam… Eles crescem aqui fora”, conclui a responsável.

E porque persistem alguns mitos sobre o brincar, convidámos o pediatra Bilhota Xavier e a psicóloga Susana Lalanda a desfazer alguns.

Mitos e verdades do brincar

Mais brinquedos é igual a mais estímulos?

Nem por isso. Não faltam atualmente estímulos às crianças, e estes não passam apenas por brinquedos. A quantidade não significa necessariamente qualidade e o principal malefício do “exagero” é poderem ser “precocemente encaminhadas para uma sociedade de consumo e de abundância, em que tudo aparece sem esforço, e em que é mais importante ter e parecer do que ser”, defende o pediatra Bilhota Xavier.
Susana Lalanda, psicóloga, adianta, por sua vez, que mais do que brinquedos “é necessário tempo, dedicação, atenção do adulto à criança”. Cabe ao adulto “tornar o mundo compreensível à criança, desconstruir e, através da relação ,ser o seu modelo, na resolução de conflitos e na forma como se relaciona com os pares”. “Em nada adianta ter muitos brinquedos se depois não tenho com quem os partilhar”, remata a psicóloga.

Brincar na terra é pouco higiénico e faz mal à saúde?

Nada de mais errado, entendem os especialistas. Em termos físicos, as crianças que têm a oportunidade de brincar na terra “ficam muito menos sujeitas a doenças, nomeadamente as alérgicas e a asma”, explica o pediatra Bilhota Xavier. Já no plano do desenvolvimento, Susana Lalanda, psicóloga, defende que o contacto com a natureza “é a melhor forma de desenvolver inúmeras capacidades nas nossas crianças, desde a sensibilidade a cheiros, ao toque e texturas e até mesmo a sua criatividade”.
“Quando brincamos na rua ou na terra é necessário que nos adaptemos constantemente às mudanças e que criemos soluções para o jogo que se inventa e se cria”, adianta, considerando que “esta adaptação e resolução de problemas é essencial para o crescimento e vida futura”.

Brincar dever ter limite de tempo ou horário?

O tempo para brincar nunca é demais e deveria ser colocado nas agendas a exemplo de outras atividades “obrigatórias”, desde que seja “um brincar espontâneo” e não seja “sempre dirigido e orientado pelo adulto”, sublinha a psicóloga Susana Lalanda. Para brincar “é preciso ter-se tempo”, sendo que “esta é cada vez mais uma palavra mais ‘cara’ e escassa na vida das nossas crianças que têm verdadeiras agendas de trabalho”, acrescenta, lembrando as atividades extracurriculares, os trabalhos de casa, o estudar, que ocupam os mais novos.
O pediatra Bilhota Xavier partilha da mesma opinião mas alerta para o facto de que o brincar também não deve comprometer a “boa gestão do tempo” nem retirar tempo para outras atividades. Se assim acontecer, “pode ter efeitos contraproducentes”, admite.

 

(Notícia publicada na edição de 1 de junho de 2017 do REGIÃO DE LEIRIA)

Martine Rainho
martine.rainho@regiaodeleira.pt