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Maria Francisca Gama

Maria Francisca Gama

Estudante do ensino superior, escritora

mariafranciscagama@hotmail.com

Quem nos emprega em Leiria?

Out 25, 2018 | Convidado, Opinião | 3 comments

Por mais que nos sintamos nostálgicos dos tempos em que o lugar mais alto do Mundo se alcançava aos ombros dos nossos pais, nenhum de nós, hoje, continua a querer apenas chegar lá. As saudades do que já passou, do que tornou a nossa infância essa época que tanto nos faz agora sorrir, a verdade é que isso não é sinónimo de querer voltar, de menosprezar o futuro que todos podemos ter pela frente, ou as realizações profissional e pessoal que poderemos experienciar.

A maioria de nós fez as malas quando terminou o Ensino Secundário, despediu-se da cidade e fez-se à vida para uma maior. A maioria de nós, aliás, foi com a promessa de voltar, e que bom será criar uma família ao domingo de manhã, quando o sol bate na calçada da Praça, e os miúdos podem correr por lá em segurança.

E depois os anos foram passando. Cada um de nós fez o seu curso, uma parte de nós lá continuou para fazer o mestrado… os fins de semana continuaram a ser os dias prediletos para ir a casa, e as nossas famílias continuaram a receber-nos com a mesma alegria de sempre. À noite, ao vaguear pela cidade, apercebemo-nos de que já não conhecemos ninguém: as gerações que nos seguiram substituíram o vazio das ruas que nós enchíamos, tomaram conta dos cafés que apelidávamos de nossos, e aqueles que, anteriormente, nos recebiam, agora têm um novo rosto e não sabem os nossos nomes.

Costumamos sentar-nos à volta de uma mesa no Pátio do Barão, e ninguém parece querer voltar.

Não encontramos emprego em Leiria. Não encontramos casas para arrendar em Leiria. Se alguns de nós estão fascinados com a energia de uma cidade, ligada cada vez mais por turistas, ou com a quantidade (mas cada vez pior qualidade) de transportes públicos da capital? Talvez, mas acreditem que muitos tinham gosto em regressar. Não há emprego para nós, que estudámos anos a fio para podermos ser alguém; não há casas a preços acessíveis, que possamos pagar com os nossos primeiros salários.

Aceitam que nos vamos embora, somos o futuro, algures deverá estar até o próximo presidente da câmara municipal… especializamo-nos, tornamo-nos mais úteis e completos e, quando estamos prontos para voltar, não há quem nos empregue, não há quem nos albergue.

Não é uma opção voltar para Leiria, com vinte e tal anos, e morar de novo com os nossos pais. Tornámo-nos independentes, criámos o nosso espaço: não o entendam como um ato de ingratidão, só estamos crescidos. Querem levar a cidade para a frente? Lutem por nos ter, porque muitos querem encabeçar o futuro de Leiria. Invistam nas propostas que têm para nós, que nós revitalizaremos o centro. Criem-nos postos de trabalho, que daqui a uns anos seremos nós a precisar de quem trabalhe connosco.

Não se queixem de não nos verem, se não nos chamam.

3 Comentários

  1. Fabricio

    Aqui no Brasil já fizemos isso no passado, lamentar pela cidade do interior que não dava oportunidades de emprego, e sabe o que nós, jovens daquela época fizemos? Copiamos o que faziam na capital e passamos a oferecer (Comercio e Serviço) e sabe o que os industriais (donos de indústrias) fizeram? Com benefício fiscal transferiram suas operações da capital para o interior e nenhum jovem precisou mudar para a capital ou para outro país.
    Simples assim!

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  2. Beatriz Silva

    Obrigada por este texto Maria. É o que pensamos, absolutamente, e através deste texto tiras-nos a palavras da boca, enches-nos os olhos de lágrimas de emoção e compreende-nos como ninguém, mas a questão é, será que eles nos compreendem?
    Um texto para se guardar no coração, com toda a certeza. Obrigada.

    Responder
  3. Ana Pires

    Fosse só em Leiria, dava-se um jeito, já viram Caldas da Rainha? FALIDA. Porém há empregos, e SÓ para JOVENS, passaste dos 40? Já não serves para nada, ao menos não nas Caldas, a tal, famosa cidade termal, que de termas não há nada. Portugal está todo assim, ou seja, não se percebe. Os jovens dizem que não há trabalho, porém nas entrevistas são bem claros a dizer que depois de uma certa idade, esqueça. Refiro-me claro a sub empregos, pq para os que se formaram em evolução das ostras, (e são muitos) de certeza que em Portugal não há mesmo.

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