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Por mais que nos sintamos nostálgicos dos tempos em que o lugar mais alto do Mundo se alcançava aos ombros dos nossos pais, nenhum de nós, hoje, continua a querer apenas chegar lá. As saudades do que já passou, do que tornou a nossa infância essa época que tanto nos faz agora sorrir, a verdade é que isso não é sinónimo de querer voltar, de menosprezar o futuro que todos podemos ter pela frente, ou as realizações profissional e pessoal que poderemos experienciar.

A maioria de nós fez as malas quando terminou o Ensino Secundário, despediu-se da cidade e fez-se à vida para uma maior. A maioria de nós, aliás, foi com a promessa de voltar, e que bom será criar uma família ao domingo de manhã, quando o sol bate na calçada da Praça, e os miúdos podem correr por lá em segurança.

E depois os anos foram passando. Cada um de nós fez o seu curso, uma parte de nós lá continuou para fazer o mestrado… os fins de semana continuaram a ser os dias prediletos para ir a casa, e as nossas famílias continuaram a receber-nos com a mesma alegria de sempre. À noite, ao vaguear pela cidade, apercebemo-nos de que já não conhecemos ninguém: as gerações que nos seguiram substituíram o vazio das ruas que nós enchíamos, tomaram conta dos cafés que apelidávamos de nossos, e aqueles que, anteriormente, nos recebiam, agora têm um novo rosto e não sabem os nossos nomes.

Costumamos sentar-nos à volta de uma mesa no Pátio do Barão, e ninguém parece querer voltar.

Não encontramos emprego em Leiria. Não encontramos casas para arrendar em Leiria. Se alguns de nós estão fascinados com a energia de uma cidade, ligada cada vez mais por turistas, ou com a quantidade (mas cada vez pior qualidade) de transportes públicos da capital? Talvez, mas acreditem que muitos tinham gosto em regressar. Não há emprego para nós, que estudámos anos a fio para podermos ser alguém; não há casas a preços acessíveis, que possamos pagar com os nossos primeiros salários.

Aceitam que nos vamos embora, somos o futuro, algures deverá estar até o próximo presidente da câmara municipal… especializamo-nos, tornamo-nos mais úteis e completos e, quando estamos prontos para voltar, não há quem nos empregue, não há quem nos albergue.

Não é uma opção voltar para Leiria, com vinte e tal anos, e morar de novo com os nossos pais. Tornámo-nos independentes, criámos o nosso espaço: não o entendam como um ato de ingratidão, só estamos crescidos. Querem levar a cidade para a frente? Lutem por nos ter, porque muitos querem encabeçar o futuro de Leiria. Invistam nas propostas que têm para nós, que nós revitalizaremos o centro. Criem-nos postos de trabalho, que daqui a uns anos seremos nós a precisar de quem trabalhe connosco.

Não se queixem de não nos verem, se não nos chamam.