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De ano velho a vida nova

Francisco de Lacerda
Professor na Universidade de Estocolmo

Neste início de ano queria partilhar reflexões sobre uma experiência pessoal que marcou o meu 2018 e que mostra como pequenos erros acumulados podem ter consequências fatais. É um esboço da história trágica das férias de verão que passei com a família em Leiria, enquanto a vida da minha mãe se ia apagando no Hospital de Santo André.

Na semana anterior à minha chegada para férias em Leiria, a minha mãe foi vítima de um AVC inesperado, enquanto estava calmamente a conversar com a minha irmã. Foi de ambulância para as urgências do Hospital de Santo André e recebeu imediatamente os cuidados médicos adequados. Tudo teve uma evolução muito favorável. Constatou-se rapidamente que ela tinha sido vítima de um AVC isquémico, seguido de uma recuperação espontânea pouco depois de ter chegado ao hospital.

Ficou internada vários dias para observação e como não parecia haver sequelas do AVC, ia ter alta na véspera da minha chegada a Portugal. Porém, quando estava para assinar a nota de alta, o neurologista notou que tinham acabado de chegar novos dados clínicos que não tinham sido registados na nota de alta já imprimida. Tratava-se de febre e dor no antebraço onde tinha sido inserido um cateter durante o internamento.

Como era sexta-feira, o médico alertou para os riscos de infeções hospitalares porque o internamento teria que abranger fim-de-semana e sugeriu alta com vigilância da febre em casa. A decisão parece-me correta mas tendo a febre surgido durante o internamento, teria sido lógico fazer análises para saber se a febre não seria já causada pelas infeções que se queriam evitar com a própria alta.

Infelizmente, uma vez em casa, a febre continuou a subir de forma alarmante e no dia seguinte a minha mãe teve que voltar a registar-se no balcão das urgências do Hospital de Santo André e é a partir daqui que a lamentável aparente falta de coordenação de dados clínicos do hospital poderá ter sido a origem da evolução irreparável do choque séptico de que vitimou a minha mãe. Há um erro óbvio na data do AVC que ficou registada na anamnese – um erro que teria ocorrido se houvesse coordenação de dados clínicos. Em vez da data de alta do dia anterior, a anamnese refere erradamente um internamento por AVC em 2017.

Provavelmente é isso que explica porque é que se perderam mais de 48 preciosas horas em exames genéricos, sem tomar em consideração o contexto em que a febre tinha surgido e os fortes indícios de choque séptico. Preocupa-me que durante os primeiros dias tenha sido ignorada a informação crítica que, como familiares, tentamos transmitir aos médicos responsáveis. E em vez de ser remetida aos serviços de onde tinha acabado de ter alta, a minha mãe foi vítima de uma burocracia inefetiva e surda que fez perder demasiado tempo com tentativas de diagnóstico nas condições inadequadas da urgência genérica.

Estatisticamente, morrer com 88 anos não é inesperado, mas é preciso evitar sempre e a todo o custo as consequências fatais de séries de erros que se vão acumulando. Preocupa-me que a aparente falta de coordenação de dados clínicos, aliada à desconfiança e o desrespeito pela informação crítica facultada por familiares, possa ter sido a causa próxima da morte da minha mãe. E preocupa-me ainda mais que tudo isso possa ser uma questão de cultura hospitalar que, se não for corrigida, muito provavelmente irá continuar a vitimar doentes.

Aqui fica a minha contribuição para que casos como este não se venham a repetir.

Bom Ano Novo!

(Artigo de opinião publicado na edição de 10 de janeiro de 2019)

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