Bruno Carnide partilhou esta sexta-feira, nas redes sociais, o microfilme “Outubro”. Ao longo de dois minutos e 40 segundos, o realizador leiriense revisita o incêndio de 2017, responsável pelo desaparecimento de mais de 80% das árvores do Pinhal de Leiria.

Levar as pessoas a ter “real dimensão do que aconteceu” foi um dos objetivos do trabalho. As opções estéticas e técnicas do realizador levaram, no entanto, o REGIÃO DE LEIRIA a querer saber mais.

Saiba o que moveu Bruno Carnide neste projeto que, entretanto, já foi selecionado para o Super9 Mobile Film Fest.

Como surgiu a ideia para esta curta?
Surgiu por acaso e naturalmente entre mim e a Cátia Biscaia. A nossa filha estava a dormir no carro, e para não a acordarmos, decidimos ir dar uma volta até S. Pedro, e ao fazer todo aquele caminho a ideia surgiu, e acabamos por ficar por ali a filmar de dentro do carro, e já não fomos a S. Pedro.

Que mensagem quer passar?
Mais do que os números gigantescos de hectares ardidos, penso que só se tem real dimensão do que aconteceu se estivermos lá, e como a maioria do mundo nunca verá essa dimensão, penso que falar das árvores poderá fazer as pessoas chegar mais perto da realidade. Tentei chegar a um número aproximado de árvores ardidas, mas foi complemente impossível, então optamos apenas por referir que foram milhões e milhões de árvores que simplesmente desapareceram. Na dimensão sonora tentei criar a imagem do que terá acontecido durante e após a tragédia, os sons que todas aquelas árvores terão ouvido.

Porque filmou com smartphone?
Foi uma ideia propositada. Uns dias antes, a Luísa Sequeira, directora do Super9 Mobile Film Fest, tinha-me desafiado a fazer um filme mobile. Na altura não lhe consegui dar uma resposta positiva, mas as circunstâncias acabaram por fazer acontecer, e entretanto também já recebemos a notícia de que o filme foi selecionado para o festival.

Que soluções técnicas e estéticas escolheu?
Filmar com o telemóvel tem muitas restrições e para evitarmos problemas, optamos por imagens fixas. Filmamos tudo à mão sem apoios ou tripés, para dar ainda assim uma sensação meio tremida à imagem. E no final aproveitamos a chuva para fazer uma metáfora com a própria câmara ou espectador que chora após a devastação. Depois tratei toda a imagem e fotografia de forma a que a sensação de solidão e abandono fosse o mais rapidamente percetível ao espectador, para assim a mensagem lhe chegar com maior impacto.

Pensa fazer mais algum trabalho sobre o Pinhal de Leiria?
Não gosto muito de me aproveitar das tragédias para fazer o meu trabalho, mesmo este micro filme surge mais de dois anos depois da tragédia e de uma forma quase involuntária ou por acaso. Não direi que não, mas não está nos meus planos.

Manuel Leiria
Jornalista
manuel.a.leiria@regiaodeleiria.pt