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Editorial: As marcas invisíveis de Leiria

Patrícia Duarte
Directora-adjunta

 

“É difícil acreditar seriamente nos progressos artísticos de um país cujos monumentos, em grande parte abandonados, nem ao menos se conservam graficamente para o estudo da geração atual e da futura que a ele tem direito”.

Esta frase pertence ao arquiteto Ernesto Korrodi e integra um prospeto do estudo de reconstrução do Castelo de Leiria. É um dos documentos que pode ser visto na exposição inaugurada, no passado domingo, numa casa que é sua: o edifício do Banco de Portugal, em Leiria.

São duas as ideias que nos agarram nesta frase de Korrodi porque se mantêm de grande atualidade.

A primeira é o abandono, a destruição e a má conservação dos monumentos. Continua a imperar uma indiferença e uma insensibilidade em relação ao património edificado que nos deixa perplexos. É disso exemplo a demolição de uma das obras de Korrodi no verão passado. O balneário que projetou em Espinho não resistiu à pressão imobiliária e as suas imagens já não puderam integrar esta exposição como estava previsto.

A segunda ideia implícita naquela frase é a visão de que as gerações atuais e futuras têm direito a conhecer e a usufruir do património erguido pelos seus antepassados. Não o podem fazer se ele não for preservado, mas também não o podem fazer se, depois de recuperado, esse conhecimento não for estimulado.

Pergunte-se aos alunos dos ensinos básico e secundário quem foi Ernesto Korrodi e quais os edifícios mais emblemáticos que deixou à cidade.
Korrodi não está para Leiria como Niemeyer está para Brasília. Mas o arquiteto suíço transformou a cidade e deixou um legado na região que, no seu conjunto, constitui um património público digno de estudo e preservação.

É recorrente ouvir-se que Leiria não tem uma marca que a distinga. A afirmação surge a propósito da música, da pintura, da literatura, da gastronomia e também da arquitetura que tão desvalorizada tem andado com prejuízo para todos. Em Leiria nada é suficientemente grande, suficientemente extraordinário, suficientemente arrojado.

Mas quem somos nós para desconsiderarmos desta forma as expressões artísticas e culturais que herdámos e nos envolvem?

Diz-se com frequência que Leiria não tem nada que a eleve e faça sobressair entre as restantes cidades do país. Não tem mesmo ou não sabe valorizar o que tem?

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