Manuel Leiria
Jornalista
manuel.leiria@regiaodeleiria.pt

Fotos: CM Porto de Mós

Desde o início de 2020, às sextas e sábados, é sempre o mesmo: há quem queira entrar no Cine-Teatro de Porto de Mós e fique à porta. Não é mais um teatro encerrado em Portugal. Pelo contrário: a vila vive a glória do Teatremos, com os 250 lugares da lotação da sala consecutivamente esgotados para ver teatro. À 15ª edição, o festival mostra-se mais saudável do que nunca – e até vai estender-se para mais alguns dias para além do previsto, porque há grupos que querem voltar a palco.

O que explica este sucesso do teatro em Porto de Mós? O vice-presidente do município, que tem o pelouro da Cultura, identifica duas razões: por um lado, a mudança de data do festival para o início do ano, “quando é mais confortável estar em sala”; por outro, refere Eduardo Amaral, há o trabalho feito no festival Teatro de Rua nos últimos cinco anos, em associação com o Leirena Teatro.

“O Teatro de Rua deu visibilidade e formação aos grupos locais, através dos formadores do Leirena. E os grupos locais começaram a deixar de ter medo do palco e da sala e desenvolvem projetos mais ambiciosos e concertados”, sublinha o vereador.

Certo é que, depois de um arranque tímido, unicamente com um grupo do concelho – o Trupêgo – e de ter tido “altos e baixos” nos últimos anos, o Teatremos mobiliza hoje nove grupos de Porto de Mós e esgota bilheteiras.

No final desta edição, cerca 2.300 espectadores assistiram aos espetáculos da edição de 2020, número raro para teatro em Portugal:

“É muito gratificante”, reconhece Eduardo Amaral, realçando que ver a sala cheia é, sobretudo, “o maior retorno e o melhor reconhecimento possível que pode haver para quem tira tempo da sua vida para fazer teatro”.

Cimento cultural

O envolvimento das comunidades tem sido determinante no crescimento do teatro em Porto de Mós. Muitos participam na produção da peça do grupo da sua terra, em palco ou noutras funções ligadas à encenação.

Até há atores octagenários que mostram tal carisma que, mal sobem ao palco, nem precisam de dizer uma palavra: “O público fica logo em delírio”, conta o vereador.

Todos querem ver o seu grupo de teatro no principal palco do concelho. No exercício de mostrar trabalho no Cine-Teatro, no Teatremos, prolonga-se “o orgulho de ver cada comunidade representada no grande palco” e de “sentir presente e viva cada uma destas associações”.

Através do teatro, em Porto de Mós têm-se dinamizado associações há muito estagnadas. E esta também é, sublinha Eduardo Amaral, uma forma de “educar públicos”: “Cria o hábito de ir, de sair e de ver, criar massa crítica e, ao mesmo tempo, das pessoas se juntarem. Juntas, fazem com que as coisas aconteçam”.

De concelho onde o teatro existia apenas em Mira de Aire, Juncal e Porto de Mós desde a década 60 do século XX, hoje há novos grupos a surgir a cada ano. Nos últimos dois apareceram quatro novas estruturas e há outras novidades no horizonte. “As pessoas estão a participar. É o que queremos, independentemente da sua idade ou capacidade”.

O vice-presidente considera que a cultura, pelo teatro, está a ser “grande fator de coesão” local.

Num tempo em que não faltam sinais de desagregação social, o projeto de teatro em Porto de Mós revela-se “um ‘cimento’ que acaba por unir todo o concelho”.

Há dez grupos no concelho de Porto de Mós – e há movimentações para surgirem mais. O Trupêgo, de Porto de Mós, é o mais antigo. Neste 15º Teatremos participaram ainda o JuncaTeatro (Juncal), Um Par de Cinco (Mira de Aire), TeatrOleiros (CCR D. Fuas, Fonte do Oleiro), Teatr’Ambu (São Jorge), Teatro Olaré (Serro Ventoso), Mendigal (Mendiga e Arrimal), Núcleo de Teatro do Instituto Educativo do Juncal e o grupo Os Miúdos da Serra (Alqueidão da Serra).