Num Portugal oprimido, fruto das restrições impostas pelo regime do Estado Novo, no início da década de 1970 havia postos de trabalho que não eram, de todo, para mulheres. Um deles era ser polícia. As poucas que estavam ligadas à Polícia de Segurança Pública (PSP) encontravam-se lá para funções de limpeza.

Quando, em 1972, abriu concurso público para a entrada de senhoras na PSP, Maria dos Anjos teve a ousadia de concorrer. Ela que vinha da então aldeia de Pataias, no concelho de Alcobaça, terra pobre e agrícola e onde os empregos existentes se restringiam à produção do vidro e da cal, para os homens, e à empalhação de garrafas, no caso das mulheres.

Foi o marido, António Duarte Castanheiro, ele próprio agente da PSP, que incentivou Maria dos Anjos a concorrer. Ela, com 34 anos, estava no limite da idade para se candidatar, mas avançou, sobretudo porque a profissão do marido o obrigava a deslocações pelo país, “desunindo’ a família, que já contava com a filha de ambos.

“Candidatei-me para termos a família reunida e para mais tarde ter uma reforma”, confessa a polícia aposentada, hoje com 82 anos, que se tornou, assim, numa das primeiras mulheres PSP do país e a primeira do distrito de Leiria.

A ideia era juntar-se ao marido em Lisboa, o que viria a acontecer depois de oito semanas de preparação em Coimbra, numa época em que, no continente, só havia PSP naquela cidade do centro do País, na capital e no Porto.

“Quanto à minha aceitação em Lisboa, sei que muitos não gostaram, apesar de não se manifestarem, e naquele tempo sentia-me muito sozinha, não conhecia ninguém”, recorda.

Inicialmente colocaram-na como tarefeira, tendo passado a chefiar, meses depois, a equipa de limpeza. “Andei dois anos por ali a ‘nadar’”, lembra também a antiga regente escolar na Burinhosa, cargo que ocupou até se alistar na PSP.

Em 1974 chegou a Revolução. “O 25 de Abril foi bom para as mulheres da polícia, reformaram-se os serviços”, lembra Maria dos Anjos, que tinha frequentado um curso de datilografia e foi para essa área, tendo passado depois pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. “Aí, fui muito respeitada”, garante a octogenária, que sempre gostou mais de trabalhar com homens do que com mulheres.

Maria dos Anjos foi a primeira mulher PSP do distrito de Leiria, em 1972. Concorreu incentivada pelo marido, António Castanheiro, também ele agente da PSP

A história de Maria dos Anjos na PSP durou 23 anos. Depois de se reformar, graças ao tempo que acumulou também na escola antes da força policial, quis regressar à terra e, apesar de ter terreno em Pataias-Gare, preferiu construir casa em Pataias, que tinha sido elevada à categoria de vila no ano anterior, já a filha frequentava a Universidade Católica em Lisboa.

Hoje, a antiga PSP gosta de passear a pé com o marido e das viagens que vai fazendo dentro do país de vez em quando. O que não lhe agrada é o facto de atualmente haver “menos respeito pelas autoridades” e “menos apoios” para os agentes da PSP e militares da GNR.

“A minha reforma é mais elevada do que o ordenado de um agente no ativo”, resume Maria dos Anjos.

(Artigo publicado na edição impressa de 5 de março de 2020)

Ana Ferraz Pereira