Elsa Rodrigues, Professora elsardrgs@gmail.pt

Quem não gostava de voltar aos mundos a preto e branco dos filmes da nossa infância? Eram tão mais simples. O preto era sinal evidente de vilania. O branco, a claridade, era indício de inocência e honestidade. Bem e mal estavam cromaticamente demarcados para serem facilmente reconhecidos.

Entretanto crescemos. Já não há filmes nem mundos a preto e branco. Bem e mal estão fundidos, doseados em escalas de cinzento, e até as cores primárias se misturam e diluem em tons que não temos capacidade de pensar nem nomear. Este é o nosso mundo: excessivo, complexo, rebelde. Vivemos no excesso de todas as coisas: discursos, verdades, versões, razões, experiências, objectos, necessidades, sentimentos, enfim, excesso de cores.

Parece-me, e os acontecimentos recentes confirmam-no, que temos grande dificuldade em orientarmo-nos e em orientarmos um mundo assim. Parece-me também que essa orientação deve passar pelo regresso a um pensamento dicotómico, capaz de reduzir qualquer debate a um par de opostos que nos posicione: preto ou branco, A ou B, quer se trate de uma discussão filosófica ou doméstica. Estabelecidas as bases em terreno seguro e firme, os edifícios mentais resultantes poderão resistir às oscilações a que a realidade está sujeita. E na base, na essência, encontraremos o tudo e o nada numa formulação simples, o branco e o preto de cada coisa.

(texto publicado na edição em papel de 4 de Novembro de 2011)