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Paga o justo pelo pecador. Os ditados populares não enganam, e por mais que, por vezes, desprezemos a sabedoria popular, não encontrei melhor ditado português para iniciar esta crónica.

Há duas semanas, se a memória não me falha, os jornais e as redes sociais informaram o país de que, o Grupo GPS havia sido acusado pelo Ministério Público: acederam a verbas públicas, recebidas do Estado, no âmbito de contratos de associação, desviando dos colégios beneficiários cerca de 30 milhões de euros para empresas terceiras, por si administradas, e para os seus patrimónios pessoais, através de um esquema de empréstimos e de faturação, gerando fluxos financeiros entre as contas bancárias de empresas do grupo, permitindo, assim, a saída camuflada do dinheiro. Para além disto, foi a público a quantidade de carros que preenchem as garagens dos administradores, bem como o preço pago num jantar pelo vinho que foi servido: a opinião pública manifestou-se, e os comentários foram, em parte, os esperados. Os administradores do Grupo são ladrões, “deviam estar todos presos”, são “desonestos” e “tiraram a todos para ficarem com ele (o dinheiro) só para alguns”.

Até aqui, apesar de não ser apologista de julgamentos em praça pública, compreendo a revolta e a sede de justiça daqueles que leem que um conjunto de pessoas usa, indevidamente, uma parte dos fundos, dados pelo Estado, para a Educação: importante é frisar que NADA está provado, e que todos beneficiam de uma presunção de inocência, até, caso se venha a provar, sejam condenados. Mas depois, à medida que continuei a ler os comentários, perdi qualquer tipo de compaixão para com aqueles que deixavam, de forma nem sempre educada, e espero, consciente, a sua opinião: “os professores dessas escolas são todos iguais”, “ninguém trabalha”, “devem receber mais do que nós”, “por isso é que estão tão bem posicionados nos rankings”.

Paga o justo pelo pecador. Bem o diziam, e tão bem e imperioso sinto que é repeti-lo. Os professores das Escolas do Grupo GPS em nada têm que ver com a atuação do Grupo GPS. Existem professores competentes e incompetentes em todas as escolas, independentemente destas serem públicas, de contrato de associação ou privadas. E, acima de tudo, por mais que a competência seja relevante, existem pessoas bem formadas, cuja profissão foi uma escolha que adveio do gosto de ensinar, que merecem respeito. Vocês, adultos, que me leem, e que ofenderam os professores, não se sintam insultados por ser eu, que poucos meses dos meus verões trabalhei, a dizer-vos que, no nosso emprego, existe uma hierarquia, e nas escolas que pertencem ao Grupo GPS, os professores ocupam um lugar hierárquico inferior ao dos administradores. A sua atuação não deve ser confundida com a dos administradores, nomeadamente, e principalmente, porque não são eles que gerem o dinheiro entregue pelo Estado às escolas (dinheiro esse que ainda não foi provado, volto a frisar, ter sido desviado ou usado ilicitamente). Aos professores, admirem-se, nessas escolas, cabe-lhes ensinar, educar, e cumprir aquilo a que se propõem quando, em conjunto com a Direção (e não com a Administração), preparam o ano letivo.

Eu estudei numa Escola com Contrato de Associação, no Colégio Dr. Luís Pereira da Costa, em Monte Redondo. Se tinha excelentes condições humanas, se os professores, a Direção e os funcionários eram pessoas honestas, trabalhadoras e recebiam, única e exclusivamente, o seu ordenado, desdobrando-se e fazendo, com o que lhes era devidamente entregue, o seu trabalho de forma exemplar? Sem dúvida.

E sabem o que me entristece? É que pelas supostas más intenções e fraudes de uns, daqueles que agora são acusados, os postos de trabalho de tantos outros, que têm famílias, que sempre se dedicaram, sejam postos em causa. Não julguem em praça pública: existem tribunais, e os réus são os cinco administradores do Grupo, e não as centenas de professores e funcionários distribuídos pelas escolas.

Esperemos pelo desenrolar do processo e, até lá, independentemente de tudo, respeitemos o trabalho daqueles que nunca quiseram outra coisa que não formar jovens para serem os adultos do futuro.