Quem quiser ser verdadeiramente feliz, tem de reduzir a velocidade. A velocidade estonteante também pode dar aquela sensação de vertigem, desencadear uma resposta adrenérgica e isso parece dar prazer, mas contínuo com a minha, que quem quiser ser verdadeiramente feliz tem que dar tempo e ter tempo para as coisas. A velocidade dá gozo pelo desafio, mas aproveita-se pouco a paisagem.

Saborear é a palavra certa. Saborear as comidas, os lugares e as pessoas. Quando nos perguntamos qual o local onde nos sentimos seguros, todos escolhem sítios onde nos demoramos a estar, e ninguém escolhe uma paisagem bonita por onde passamos uma visita a correr. Eu cá sou fã de um lugar na casa dos meus pais na aldeia, debaixo de uma tília gigante. Sempre que me abrigo lá debaixo ela parece proteger-me de tudo e todos. As folhas, o perfume das suas flores apaziguam todas as dores e desacertos da alma. Façam esse exercício e vão ver que escolhem sítios calmos e com significado.

Também quando nos pedem para nomear pessoas importantes na nossa vida, damos sempre a escolha a amigos ou família que nos acolhe com calma e que não nos julga, e é isso que os torna especiais. Cada vez aprecio mais uma tia velhota, os meus pais, os meus sobrinhos. Cada vez me apraz mais rodear daqueles amigos de sempre, que estão sempre do nosso lado, aconteça o que acontecer. As conversas lentas, as memórias, os projetos, as gargalhadas e tudo o que um grupo de amigos sabe fazer. Não nos mostramos, estamos.

Então está decidido que desacelerar no dia, na semana ou mesmo no mês é um bom caminho para a felicidade. Não quero com isto criar um bando de preguiçosos, pasmados e inativos. Quero que apreciem as coisas, que deem tempo às pessoas, mesmo que esse tempo seja contado. Quando estamos não podemos estar a pensar que deveríamos não estar. Slow tudo.

Nunca é perda de tempo estar com quem gostamos. Abrandem para ver a paisagem, abrandem para escutar as pessoas, abrandem para viver mais intensamente. Nada é mais valioso que o tempo de qualidade. Devagar também se chega longe e o caminho é muito mais prazeroso.

(Artigo publicado na edição de 24 de setembro de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)