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Helena Vasconcelos

Médica | hml.vasconcelos@gmail.com

O meu diário: Casas

Nunca valorizámos tanto a nossa casa. Nunca a vimos tão de perto, nunca sentimos tanto os seus espaços, os seus cheiros, as suas texturas. Mesmo eu, que tenho trabalhado diariamente desde o início desta pandemia, acho que nunca passei tanto tempo em casa. Nunca cozinhei tanto, ai meu Deus a balança , nunca fiz tanta experiência culinária. Nunca me sentei em locais tão improváveis na minha casa. Fiquei a conhecê-la como nunca, nestes 20 anos que lá habito.

Constatei que os mosquitos e as formigas estão a tentar tomar de assalto algumas áreas exteriores e dividimo-nos lá em casa em dois exércitos, uns que pedem a exterminação sumária dos bichos, e outros que acham que eles têm todo o direito à vida.

As discussões filosóficas dos direitos dos animais têm sido uma constante em quase todas as refeições. Tenho seguido de perto o crescimento de algumas plantas no meu jardim . Os malmequeres e as estrelícias têm sido monitorizados de perto. Atrevi-me na agricultura, mas o ciclo de desenvolvimento das minhas alfaces está muito abaixo dos das outras pessoas, diria mesmo que não passam do percentil 5.

Nas minhas incursões agrícolas à Agriloja tomei os conselhos de uma simpática vendedora e de uma cliente que me parecia entendida neste ramo, e perguntei-lhe por que razão as minhas alfaces não cresciam. Fui logo explicando que as tenho visitado, regado e falado com elas quase diariamente. A cliente que era uma simpatia receitou adubo e Sra. da loja foi diligentemente explicar-me e indicar-me de que saco se tratava, sob pena de escolher outra coisa que não fosse o adubo.

Mais uma séria discussão ao jantar com o consenso a alargar-se contra o adubo que só faz mal ao ambiente. Neste particular não havia duas fações, todos estavam de acordo que o adubo era uma coisa má. Mas, na verdade, eles não percebem nada de alfaces apenas as sabem comer e, vá lá, temperar! Deixei passar uns dias e à socapa fui espalhar umas bolinhas azuis de adubo com a esperança de conseguir salvar as alfaces a uma morte lenta e certa. Ainda estou a aguardar as melhoras.

Assim os nossos mundos estão mais pequenos de espaço mas mais refletidos, mais pensados , mais pormenorizados. Observar passou a ser prática comum e o olhar o mundo, os outros e a natureza assumiu uma nova dimensão. Nem tudo é mau neste novo mundo! Mas que estou farta dele estou.

(Artigo publicado na edição de 30 de abril de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)