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O meu diário: Palavras

Deve haver poucas pessoas que gostem tanto de palavras como eu e que respeitem e vivam fascinadas por quem as sabe utilizar de forma harmoniosa.

Helena Vasconcelos, médica hml.vasconcelos@gmail.com

Deve haver poucas pessoas que gostem tanto de palavras como eu e que respeitem e vivam fascinadas por quem as sabe utilizar de forma harmoniosa.

Há palavras que detesto, que me enervam. Quando era criança detestava aliás. Lembro-me de perguntar ao meu pai o que queria dizer aliás e de o ver engasgado a construir uma explicação do género palavra de ligação que queria dizer algo mais detalhado acerca do que se tinha vindo a dizer… tretas. Coitado do meu pai que é biólogo e nunca teve grande queda para as línguas. Depois, mais tarde em Coimbra, já com os professores, era o paulatinamente e o jugular. O paulatinamente sempre gostei de trocar por devagarinho e a segunda só me fazia lembrar colocação de cateteres centrais na veia jugular. Sempre ficava melhor dizer debelar ou mesmo de uma forma bruta e insensível, mas direta para todo o português entender, parar. Está visto: nunca gostei de gente palavrosa. E é aquela gente de ciências, imaginem os professores de Direito. Coitados dos alunos, devem entender os “ques” e os “mas” nas frases e pouco mais. Quando estive em Angola havia um código que dizia que quem diz paulatinamente é apoiante do José Eduardo dos Santos. Quase sempre batia certo.

Há pouco tempo já mostrei a minha ira com a palavra transversal. Não sei se a minha raiva tem a ver com as palavras se com quem as utiliza: a maioria políticos bem falantes mas mais nada. Ora transversal quer dizer que vai de um lado ao outro, mas para isso talvez o oblíquo também sirva com o ónus de ir um pouco enviesado.

A que mais irrita, talvez porque a tendência seja mais recente, é o pró-ativo. Temos de ser proativos, coisa que quem geralmente a utiliza não é: são mais pró-passivos ou pró-cansados.

A tendência primavera/verão na Vogue das palavras é o assertivo. Que se use na análise linguística ainda vá lá, agora quando se fala a sério para as pessoas é ridículo. Eu até sou muito assertiva, não porque acerto na mouche mas porque digo o que penso sem rodeios. Não há paciência.

(texto publicado a 14 de marco de 2013)