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O meu diário: Saudades

Tenho saudades destes homens, fazem-nos falta a todos, mesmo àqueles que não os conheceram. Marcaram pela diferença.

Helena Vasconcelos, médica hml.vasconcelos@gmail.com

Esta semana no feriado da cidade homenagearam-se dois homens que já partiram e que tive o privilegio de conhecer. Tão diferentes e tão semelhantes em alguns pontos.

O meu amigo Leonel empresário de sucesso, homem positivo, caracterizava-se pela emoção, pela paixão. Tudo nele era intenso. Gostava muito, divertia-se muito, vivia muito. Tinha uma admirável capacidade de misturar pessoas e de lhes dar atenção. Sentava ministros ao lado de operários amigos e saia airosamente de tudo isso. Chorava com uma história e ria com uma boa piada. Apesar de tudo o que o rodeava, apesar de ser vaidoso, era genuíno. Olhava-nos fundo com aqueles olhos claros e tinha uma rara qualidade que consiste em ficar feliz com o sucesso dos outros. Era um homem bom. Apaixonado pela família, brejeiro, sonhador. Tínhamos tantos projetos juntos. Uma clínica em África, uma fundação, eu sei lá. Faz-me falta o Leonel para trepar pelos sonhos e voar. Para ele impossível era mesmo nada. Lá onde está, de certeza que nos está a incentivar a ousar, a ousar sonhar, a ousar concretizar. De certeza que está por lá a fazer estragos com a sua inquietude, que está a desesperar-se da nossa tacanhez. Era assim o nosso amigo comendador, é assim o nosso comendador.

O engenheiro Ribeiro Vieira conheci mais tarde e tenho pena de não ter tido oportunidade de ficar mais tempo a ouvi-lo, a aprender com ele. Também ele era um apaixonado pelas pessoas, pelas artes, pelo mundo. Este senhor era um estratega, tinha uma visão do mundo muito dele e conseguia misturar números e gestão, com cultura e paixão. Tinha ética, tinha carisma, desculpem-me a falta de erudição: tinha muita pinta. Conheci-o antes da doença mas acabei por privar mais durante a doença e faltou-nos tempo e tranquilidade. As suas filhas eram o centro do seu universo e é esta dimensão humana que torna estes homens admiráveis. Lá onde está já deve ter uma estante cheia de livros e uma mesa cheia de jornais.

Tenho saudades destes homens, fazem-nos falta a todos, mesmo àqueles que não os conheceram. Marcaram pela diferença. E já agora ficam também a saber que ambos tinham uma razoável dose de mau feitio. Até sempre.

(texto publicado na edição em papel de 25 de maio de 2012)