Celebramos amanhã mais um aniversário do movimento libertador do 25 de Abril, o quadragésimo sexto. São já muitos os anos que nos separam daquela madrugada que Sophia esperava, daquele dia inteiro e limpo nascido ao som da Grândola do Zeca, libertada da noite e do silêncio em forma de substância do tempo.

A cada ano que passa percebemos que se vai esbatendo na nossa memória coletiva, fechando-se cada vez mais nos cada vez menos que viveram os sons e os cheiros da liberdade acabadinha de chegar na ponta de espingardas forradas a cravos vermelhos.

São muitos anos. São muitas gerações que nasceram e vivem já em liberdade, sem que lhe tenham ouvido o som e sentido o aroma. Como dado adquirido, como tão natural como o ar que respiram. Sem nunca lhe sentirem a falta, e incapazes de percecionar a verdadeira dimensão da sua conquista.

Importa celebrar Abril. Nem tanto para que os cada vez menos que o viveram o possam reviver. Acima de tudo para que da consciência coletiva da nação não desapareçam definitivamente os cheiros e os sons donde saiu esse supremo alimento da dignidade humana que é a liberdade.

Os tempos que vivemos, confinados como reféns desta maldita pandemia, impedem-nos de sair à rua, o local de culto das celebrações. O altar do 25 de Abril, onde verdadeiramente se revive e se renova, nem que seja por um dia. Na Assembleia da República, entre as altas figuras do Estado, assinala-se a data. Há muito que assim é, com o cinzentismo de quem simplesmente assina o ponto. Com e sem cravo ao peito.

Este ano, à boleia do confinamento de que estamos reféns, ganhou inusitada dimensão polémica. Certamente dispensável. Nem por isso, certamente também, perderá em cinzentismo!

(Artigo publicado na edição de 23 de abril de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)