Tenho acompanhado algumas iniciativas e progressos interessantes na região, incluindo no plano educacional como é o caso Instituto Politécnico de Leiria (que supera algumas universidades nacionais de referência em indicadores importantes, por exemplo registo de patentes,) que constitui uma “âncora” fundamental para o desenvolvimento da região. E a candidatura de Leiria a capital europeia da cultura é também por si só um bom sinal de transformação da cidade/região, conferindo-lhe uma visão e ambição mais cosmopolitas. Este tipo de desenvolvimento deve ser acompanhado por melhores infraestruturas, nomeadamente ao nível dos transportes públicos. Porém, os transportes públicos de Leiria/região têm regredido bastante. Por exemplo, ainda me recordo de haver autocarros de 30 em 30 minutos até às 22h. Isto já não existe!

Não se percebe bem a razão, nem mesmo uma eventual justificação de racionalidade económica. Neste caso, os transportes podem também ser compreendidos numa lógica de “subsidiação cruzada” para potenciar outras formas de gerar desenvolvimento e receitas para a região. O sistema de transportes públicos não está a potenciar a mobilidade e são maus porque (i) os autocarros têm frequência muito reduzida, na melhor das hipóteses, de hora a hora; (ii) os itinerários são longos e sem grande conveniência, pela má articulação das rotas; (iii); a “vida” na área urbana parece acabar às 19h, uma vez que na maior parte das linhas este é o ultimo horário; e (iv) o último autocarro de regresso do shopping é às 20h50, mas este espaço está aberto até às 23h.

Por essas e outras razões, é oportuno perguntar, por exemplo, como é que os alunos – nacionais e estrangeiros que não possuem transporte próprio -, regressam a casa, sobretudo em horários pós-laborais cada vez mais frequentes? Quantas pessoas, não só as mais idosas, que vivem fora da cidade, têm de sair e regressar a casa de táxi do centro da cidade, para deslocações básicas como ir a uma consulta ou comprar comida? Nem o UBER ajudaria muito! A falta de transportes está a gerar outros problemas, como a dificuldade de encontrar quartos/casas para arrendar. Na verdade, é uma falsa questão porque o stock habitacional existe, mas não deve ser visto apenas associado ao centro da cidade.

Se houver bons transportes, pelo menos nas áreas circundantes da cidade, não só as opções serão maiores e mais baratas, como também possivelmente terão melhor qualidade. Fará mais sentido investir na construção de novas residências universitárias ou investir na melhoria dos transportes públicos cujas externalidades – benefícios – serão alargadas a todos os cidadãos, incluindo turistas? Por exemplo, em termos de distância, não será mais longe ir da Cruz D’Areia para o IPL/ESTG/Shopping, do que do centro da cidade para o IPL/ESTG/Shopping, mas a ausência de transportes cria uma distância artificial.

As cidades concorrem cada vez mais entre si no espaço nacional e internacional. Até do ponto de vista simbólico isso é evidente: não conheço nenhuma cidade (e muito menos uma capital de distrito, e já nem no leste europeu…) com um terminal rodoviário tão indigno (a nível funcional e estético) como o de Leiria. É urgente encontrar soluções para melhorar a mobilidade social (dos estudantes, cidadãos e turistas), trata-se de um tema de vital importância para atrair e fixar pessoas e talento; não resolver este problema representará também uma grande miopia económica.

Em síntese, apesar da sua centralidade territorial, Leiria/região (encostada ao litoral e relativamente próxima das duas principais cidades), está a ficar periférica sobretudo porque os outros distritos estão a evoluir em matéria de transportes. Isto para não falar de algumas pessoas – como eu – que ainda sonham com o dia em que seja possível sair ou regressar a Leiria de Comboio. Claro que também me seria muito conveniente ter um Aeroporto low cost na base aérea de Monte Real, mas existem outros problemas de transporte que devem ser resolvidos a curto prazo!

(Artigo publicado na edição de 20 de fevereiro de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)