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Clarisse Louro

Professora do Ensino Superior

Opinião: Mais do que racismo

O país acordou esta semana com um sobressalto de racismo. E de repente demos com um país chocado, mas também hipócrita, como se desconhecesse a existência de um problema que há muito sabe que existe.

O país acordou esta semana com um sobressalto de racismo. E de repente demos com um país chocado, mas também hipócrita, como se desconhecesse a existência de um problema que há muito sabe que existe.

O que aconteceu num estádio de futebol em Guimarães, que atentou severamente contra a dignidade de um cidadão maliano que é jogador profissional de futebol, poderá não ter constituído uma manifestação clássica de racismo, mesmo que constitua um clássico do racismo nos estádios de futebol.

A novidade está apenas na atitude do jogador que, ao sair do campo, e da forma como o fez, lhe deu a verdadeira dimensão. Tivesse permanecido em campo, ou discretamente pedido a sua substituição, e ninguém se teria indignado.

E todos, dos mais altos responsáveis do país e do futebol, ao mais comum dos cidadãos e ao mais alienado dos adeptos, continuariam a achar normal o que se passa neste mundo à parte em que o futebol se tornou. E onde, por incúria e promiscuidade políticas, há muito tudo acontece na maior das impunidades.

Dissociar este intolerável acontecimento do ambiente de perseguição, ódio e violência que se instalou no futebol em Portugal, diariamente alimentado em direto por abjetas programações televisivas, pelos departamentos de comunicação dos clubes e por todas as seitas instaladas à volta do fenómeno do futebol, e circunscrevê-lo a um absoluto episódio racista, onde hipocritamente os mais responsáveis irresponsavelmente debitam palavras de circunstância, será simplesmente a capitulação definitiva da sociedade, e do próprio Estado, perante os mais obscuros interesses que vivem da ignorância e da alienação da população.

(Artigo publicado na edição de 20 de fevereiro de 2020 do REGIÃO DE LEIRIA)